No verão de 1975, é criado o Serviço Médico à Periferia. Um movimento auto-organizado de jovens licenciados define as zonas mais carenciadas do país, algumas onde raramente ou nunca um médico havido estado, e partem para lá. Dão consultas em capelas, casas do povo, juntas de freguesia. O acesso a cuidados de saúde, finalmente, chegava a todos. Mais tarde, alguns acabam até por trocar a grande cidade e os hospitais centrais por pequenas vilas e cidades do interior, e aí se instalaram e realizaram profissionalmente.
Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril
Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril
O Serviço Médico à Periferia (SMF), lançado em 1975, levou a prestação de cuidados de saúde a locais e a pessoas de “extrema carência, muitas delas sem que antes tivessem sido vistas por um médico”. A afirmação é de Jorge Seabra, que, em pleno “verão quente”, fez parte do primeiro grupo de jovens clínicos que durante um ano foram materializar a novidade política de todos os cidadãos terem direito à saúde.
O objetivo, no caso do seu grupo, era prestar assistência às populações de três concelhos: Satão, Vila Nova de Paiva e Aguiar da Beira, no distrito de Viseu. Atendendo a que a melhor unidade estava situada no Avelal, freguesia de Satão, foi aí que os clínicos se fixaram, embora circulando e dando consulta pelas aldeias e vilas dos três concelhos. Onde, segundo a expressão de um taxista que um dia a transmitiu a Jorge Seabra, muita daquela gente, “alimentava-se de sopa de ortigas [sic]”, referindo-se aos mais pobres que viviam nos montes, dentro de cavernas - de que falaremos mais adiante, a propósito de um parto.
Consultas que muitas vezes eram nas instalações da Casa do Povo. Arquivo Professor Costa Almeida
Consultas que muitas vezes eram nas instalações da Casa do Povo. Arquivo Professor Costa Almeida
Nos anos subsequentes, novos grupos prolongaram esse trabalho pioneiro, em aldeias e vilas de um país atrasado, pleno de carências, com muito analfabetismo, dando consultas onde calhava: salões paroquiais, casas do povo, capelas e juntas de freguesia, invariavelmente sem condições nem meios, mas com uma vontade desmedida de dar o melhor dos cuidados e da atenção a cada pessoa, sobretudo às mais carenciadas e pobres. Alguns acabaram, até, por se fixar na dita periferia. São os médicos do povo.
Jorge Seabra
Jorge Seabra
Pobreza extrema, atraso profundo
“Foi quase uma missão humanitária”, sintetiza Jorge Seabra, 79 anos, que foi presidente da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia e diretor de serviço no Hospital Pediátrico de Coimbra, e que agora no final de uma tarde chuvosa de janeiro recorda aqueles meses passados no Avelal, no concelho de Satão, distrito de Viseu.
“É importante sublinhar - afirma - que o país, sobretudo o interior, vivia num atraso profundo. Hoje, isso é difícil de imaginar”, especialmente se se tiver em conta que, à época, “as pessoas estavam entregues a si próprias, muitas viviam na pobreza extrema: desdentadas, mal agasalhadas, com socas de madeira e solas feitas de pneu. Ora, para quem vinha do Portugal urbano, isso era um choque”, diz Jorge Seabra.
Dois anos depois, Deolindo Pessoa integrava o grupo de nove médicos que, igualmente de Coimbra, foram parar à mesma aldeia e à mesma casa, propriedade do comendador Elísio Ferreira Afonso, emigrante português que fez fortuna no Brasil.
A escassez de recursos antes experienciada pelo primeiro grupo ainda se mantinha: “Por vezes, faltava desinfetante das mãos, o recurso era o sabão macaco e água”, especifica Deolindo Pessoa, salientando ainda que também “faltavam suturas” e que os sinais de pobreza existentes manifestavam-se, por exemplo, em casos como os que testemunhou em Vila Cova a Coelheira, “onde havia pessoas que não tinham dinheiro para comprar medicamentos e que viviam em casas cujo chão era de terra e dormiam em colchões de palha”.
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Vencer o caciquismo local
José Moutinho, pneumologista e especialista em medicina do sono, fazia parte do grupo que ali chegou no ano seguinte,1978-79. Desafiado a recordar esse período, diz que se “sentia na pele de um Fernando Namora” e do seu “Retalhos da vida de um médico”, em que, como a personagem do livro, “éramos todos inexperientes e atuávamos sem rede; mas o facto de estarmos em equipa proporcionava a discussão de casos clínicos, o que, a esse nível, constituiu uma excelente aprendizagem”.
José Moutinho
José Moutinho
Mesmo assim, revela que, no caso do seu grupo, foi preciso resistir a um certo “caciquismo local” que era contra o serviço médico à periferia - “olhado como uma ideia de esquerda” - e em que frases como “vêm aí os comunistas” era usual ouvir-se.
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Era toda uma realidade simultaneamente nova e estranha. Em rigor, duplamente estranha, porque, como conta Jorge Seabra, “quando chegámos, seis médicos, a uma terrinha que teria uns 500 habitantes e onde a ideia de médico era a de alguém distante, de outra classe social, a surpresa e estranheza foram grandes” por parte daquelas pessoas, quando perceberam que “não era essa a nossa atitude e comportamento”.
Inseridas numa realidade fechada, bastante estratificada e onde, como sucedia em Sátão, “a farmácia, o delegado de saúde e a medicina privada - recorda José Moutinho - estavam nas mãos de pessoas da mesma família”, a chegada de uns “jovens de cabelos compridos e de jeans”, acrescentaria Deolindo Pessoa, causou inicialmente um forte impacto “para não dizer choque”, na população local.
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Com o tempo, “as pessoas passaram da estranheza inicial para a simpatia e gratidão, porque o nosso trabalho era útil”, observa Jorge Seabra, ao que Deolindo Pessoa junta “a necessidade que as pessoas tinham em oferecer coisas aos médicos, justamente como sinal de gratidão, como ovos, garrafas de azeite..., todo o tipo de géneros”.
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Espírito de missão
O primeiro choque foi, todavia, sentido pelo grupo que, em 1975, foi para Castro Daire, igualmente no distrito de Viseu. Costa Almeida, especialista em cirurgia geral e cirurgia vascular, ainda se ri com o dia em que ali chegou, e em que “não havia água nas torneiras, porque o calor tinha esgotado todas as reservas”.
No dia seguinte, começaram as consultas. “Tivemos sorte porque havia um edifício hospitalar, ainda que muito degradado, e o posto das Caixas de Previdência, cujo gerente nos apoiou muito”, afirma Costa Almeida, destacando a “boa articulação entre hospital e caixas”.
Rapidamente, criaram “postos periféricos nas aldeias à volta, muitas vezes sem quaisquer condições, com as consultas a serem feitas em salões paroquiais improvisados, separados por tabiques”, conta o mesmo clínico. No fundo, as condições era o que menos importava, porque todos esses jovens, incluindo os que no início resistiram ao serviço médico na periferia, olhavam para esse trabalho “com um sentido de missão”, no dizer de Deolindo Pessoa.
Daí que tanto no Avelal como em Castro Daire e em todos os locais onde os jovens licenciados foram colocados, o objetivo central era responder satisfatoriamente às necessidades das pessoas, como se dependesse deles a prova definitiva de que o país mudara para melhor, que ter acesso gratuito a um médico era uma conquista desse tempo novo, em que a saúde deixara de ser um luxo dos ricos para passar a ser um direito também dos pobres e, por isso, igual e universal.
“É como se o serviço médico à periferia fizesse parte do PREC [Processo Revolucionário em Curso]”, explica José Moutinho. Jorge Seabra diz o mesmo por outras palavras: “Tudo isto só foi possível por causa do espírito da época pós-25 de Abril. Havia a vontade de construir um país novo, mais justo; de resolver problemas estruturais como a saúde e o analfabetismo”.
Assim se percebe, como refere a seguir Costa Almeida, a preocupação, desde o início, em fixarem dias certos de consultas para cada posto, além de que “havia sempre um médico de serviço ao fim de semana”. E “tudo isto - salienta - organizado por nós, médicos, sem supervisão direta do Ministério”.
O espírito de missão e de funcionamento dos médicos, recorda o mesmo clínico, “tinha um forte sentido de serviço público”. De tal modo, exemplifica, que “com o dinheiro pago pela caixa de previdência foi possível melhorar as instalações do próprio hospital”.
Viver em cavernas
Mas quando se fala em dificuldades, escassez de meios e pobreza que os médicos foram encontrar no país que emergia de meio século de obscurantismo e miséria, dificilmente a imaginação mais criativa poderia conceber aquilo que um dia Jorge Seabra foi encontrar em Pindelhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, quando um dia foi chamado para prestar assistência a um parto.
Inimagináveis, hoje, os contextos em que exerciam a profissão, como conta também Costa Almeida.
Costa Almeida
Costa Almeida
Extrema periferia
Porém, se hoje o serviço médico na periferia constitui um marco relevante na História da medicina portuguesa, a verdade é que o projeto inicial do governo - então liderado por Vasco Gonçalves - apontava para a colocação dos jovens clínicos nos hospitais distritais. “Iríamos, por exemplo, para o hospital de Viseu, da Guarda, potencialmente de Leiria e Castelo Branco, que eram misericórdias, e tinham falta de médicos”, lembra Jorge Seabra, pormenorizando que “a ideia era a de que fossem fazer uma medicina hospitalar generalista, com os mais velhos”.
Só que os médicos e respetivas comissões de curso - é preciso ter em conta que esta geração, muito politizada, tinha vivido a crise de 1969 - tinham outros planos, outras ideias. E pressionaram o governo a mudar a decisão inicial, a favor de uma política de saúde virada, preferencialmente, para o que os jovens clínicos chamavam então de “extrema periferia.”
Jorge Seabra recorda, a este respeito, o aspeto particular da linguagem então usada: “O governo falava em periferia e nós influenciámos a mudança da expressão para extrema periferia, para deixar claro que a solução não era ir para hospitais distritais, mas para, em vilas e aldeias, fazer cuidados não hospitalares — aquilo a que hoje chamamos cuidados de saúde primários.”
Esta mudança na agulha decisória, fruto de muito diálogo entre os jovens médicos e o Executivo, “só foi possível dado o apoio e empenho político do governo, aliada à iniciativa dos médicos que organizaram e até regulamentaram, o funcionamento do serviço,” acrescenta Jorge Seabra.
É “este espaço e abertura ao diálogo, no âmbito de uma relação participativa com o poder central, hoje, infelizmente ausente,” que, na opinião do mesmo especialista, permitiu a concretização desta ideia, com os resultados positivos que são reconhecidos.
Indiferente ao impacto desta experiência pioneira ou, simplesmente, porque a correlação de forças políticas tinha, entretanto, mudado, o novo governo pretendeu acabar, em 1976, com o serviço médico na periferia, ideia que teve uma forte oposição pública, dinamizada pelas comissões de curso.
Estas viram a sua posição reforçada através do apoio de autarcas, personalidades locais e meros cidadãos. Todos os que de perto viram o impacto daquele serviço empenharam-se na sua continuidade. O próprio Jorge Seabra foi aos microfones de uma rádio, em Viseu, fazer a sua defesa pública, ao mesmo tempo que a divulgação de comunicados a reivindicar igualmente a sua manutenção acabaram por fazer algum efeito. E, assim, foi possível prolongar o SMF até 1982, altura em que as carreiras médicas passam a ser estruturadas segundo outros modelos, dando lugar, desde logo, à carreira de médico de clínica geral.
Arquivo Dr. José Meireles
Arquivo Dr. José Meireles
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
Evitar falar de política
Impossível, no entanto, mitigar-se o clima político desse verão quente, marcado por atos de grande violência, como os ataques bombistas e os incêndios a instalações de partidos de esquerda. Tal ambiente, especialmente sensível em zonas do interior, como o distrito de Viseu, acabaria, inevitavelmente, por também se fazer sentir no exercício da profissão.
Arquivo Professor Costa Almeida
Arquivo Professor Costa Almeida
No caso destes médicos – que, de modo diverso, tinham vivido intensamente a crise estudantil de 1969, o que lhes conferia um grau de politização assinalável -, viveram dias complexos e nada fáceis. Por um lado, tinham o entusiasmo do cumprimento da sua ação profissional de apoio e assistência médica às populações, no âmbito de uma medida política de esquerda; por outro lado, tinham de possuir a capacidade de resistir em silêncio aos ataques e ameaças que, frequentemente, eram feitos contra pessoas e ideias de esquerda, nas quais se filiava o serviço médico na periferia.
No Avelal, revela Jorge Seabra, “não sentimos hostilidade direta, mas limitávamos muito a discussão política.” Qualquer “atividade política que alguns de nós tivesse era feita longe da região. Procurávamos ser absolutamente neutros num ambiente muito difícil, porque numa terra tão pequena, estarmos a discutir política, isso poderia prejudicar o próprio serviço”, recorda.
Em Castro Daire, revela Costa Almeida, também se evitava falar de política entre os médicos. É certo que “nenhum de nós tinha filiação partidária formal”, observa o mesmo clínico, “embora um dos médicos fosse do CDS”. Porém, “nunca houve o menor conflito, porque, como digo, evitamos sempre qualquer tipo de discussão desta natureza”.
O nosso objetivo político - sublinha Jorge Seabra - se assim se pode dizer, era fazer o serviço médico à periferia. Essa era a tarefa que entendíamos como importante no contexto da revolução portuguesa.
A verdade é que, na região das Beiras, como sublinha ainda Jorge Seabra, “havia um ambiente de forte resistência ao 25 de abril”, ao ponto até de a casa de um assistente social ter sido incendiada e de uma vez, num hotel de Viseu, o então diretor do jornal República, Raul Rego, ter sido provocado e ameaçado.
Tal ambiente, segundo recorda ainda Jorge Seabra, tinha aspetos caricatos, sobretudo vistos à distância.
Isabel Prado e Castro, que em 1980 fez serviço médico à periferia no concelho de São Pedro do Sul, descrevia assim, nas suas redes sociais, em 26 de janeiro de 2018, esse período profissional que viveu:
A capela como consultório
Havia, com efeito, uma ideia e intenção de entrosamento dos médicos com as populações. E, principalmente, um enorme compromisso com o exercício clínico ao serviço de comunidades, em que a presença de alguém como eles era rara ou nem sequer tinha acontecido.
Integrado no grupo que, em fevereiro de 1981, foi colocado na Lousã, João Pais, cardiologista, hoje com 73 anos e que, praticamente, fez toda a carreira no Hospital dos Covões (Coimbra), em abril ou maio desse ano passou a ir regularmente fazer consultas, a Vale de Figueiras. O lugar, hoje já muito menos isolado devido aos melhores acessos e a uns 20 minutos de carro da sede de concelho, foi a primeira vez que viu um médico ao vivo - daí a receção com foguetes e tambores à sua chegada.
João Pais
João Pais
A pequena capela de Santo Aleixo, cujas marcas do tempo são muito visíveis nas suas paredes e o terreiro que outrora lhe dava acesso está atualmente coberto de ervas e de todo o tipo de vegetação de pequeno porte, era, à época, o único espaço – e também o mais limpo - para dar consultas. Assim foi.
Capela de Santo Aleixo
Capela de Santo Aleixo
Durante cerca de um ano, era no interior da capela que João Pais auscultava, media a tensão arterial, promovia uroculturas (análises à urina), ouvia e tratava as mais diversas situações de “uma população que sempre manifestou uma enorme gratidão”, afirma.
Uma comunidade que nunca tivera médico à mão, aproveitava agora a oportunidade. “As consultas estavam sempre cheias”, salienta, confirmando que “eram as pessoas mais idosas as que mais apareciam”. Mas a memória mais impressiva desse tempo distante “era o sentimento de gratidão daquela gente que, finalmente, sentia que tinha ali alguém disponível para ouvir as suas queixas, algo que nunca tinha acontecido”.
E porque se tratava de uma comunidade rural, uma vez por outra, lá deixavam em sinal de agradecimento “uns ovos, galinhas, batatas, mel, etc”, recorda João Pais, à porta da velha capela, para onde o desafiámos a regressar numa curta viagem ao passado.
João Pais
João Pais
Quando no ano seguinte, em 1982, João Pais termina ali a sua experiência foi também o fim do SMP. Com ele terminava, igualmente,e um tempo marcado pelo desejo intenso de mudança, de levar a cada pessoa a assistência e cuidados médicos de que necessitava. Independentemente da fragilidade e da precariedade de meios e de condições, inclusive deles médicos e médicas, que em muitos casos praticamente viviam acampados em casas velhas.
Daí, que o SMP deva ser entendido no seu contexto histórico específico. “Ele representa uma lição de como, num ambiente de democracia participativa, com empenhamento cívico e diálogo entre profissionais e poder central, foi possível fazer algo extraordinário - algo que hoje dificilmente passaria”, realça Jorge Seabra.
Mas foi ainda essa experiência pioneira que possibilitou - talvez seja até mais correto dizer desafiou – a muitos médicos que a viveram, não recear regressar a esses territórios. “Alguns apaixonaram-se pelos lugares, outros pelas pessoas,” sublinha Jorge Seabra, sem saber dos casos de José Ricardo, Bernardino Páscoa e de Sandra Alves, clínicos que se fixaram, respetivamente, em Arronches, Évora e Montalegre, e aos quais vamos a dar a palavra a seguir.
“Senhor dr. estou cheia de fezes”
José Ricardo, 69 anos, especialista em medicina geral e familiar, é um desses médicos que, após a experiência vivida na periferia, no Alentejo, haveria de voltar. Em setembro de 1985, decide fixar-se em Arronches, no distrito Portalegre, e nunca mais de lá saiu.
Quarenta anos depois, na sala da sua magnífica moradia situada numa pequena encosta sobranceira à vila alentejana, fala com evidente paixão da aventura das primeiras consultas - “inesquecíveis, uma maravilha”, faz questão em sublinhar - em que, por vezes, lhe dava a sensação de estar num país diferente. Sobretudo, nos dias em que fazia consultas domiciliárias. Outros tempos e outro país.
Viu-se confrontado com a novidade das expressões locais, mas, como quem corre por gosto não se cansa, até a surpresa dessa espécie de novilíngua constituiu, para si, um processo de enriquecimento pessoal e humano que valoriza até hoje.
“Tropeçar num alegrete significa bater num canteiro de flores”, começa por referir este exemplo de expressões inicialmente desconhecidas. Porém, a mais enigmática de todas e que, de resto, levou algum tempo até descobrir o seu significado, ouviu-a assim pela primeira vez numa consulta: “senhor doutor estou cheia de fezes.”
Foi tateando nas palavras e nas perguntas, procurando descortinar o que a pessoa queria dizer. Concluiu, então, que deveria ser uma gastroenterite. Não era, como veio a saber dois ou três meses mais tarde, quando voltou a ouvir a mesma expressão na consulta. Dessa vez, no entanto, as dúvidas teriam de ser desfeitas e esclarecidas. “Estar com fezes”, como, dias mais tarde, nos haveria também de revelar, em Évora, o internista e intensivista Bernardino Páscoa, de quem falaremos daqui a alguns parágrafos, “é ter preocupações”, conta José Ricardo, entre uma boa gargalhada.
José Ricardo
José Ricardo
A empatia que se perdeu
E se as palavras são como as cerejas, as memórias por peripécias são igualmente desfiadas entre risos e interjeições. “Quer uma estória que ainda hoje não sei bem como foi possível? Ei-la: um dia, uma senhora, a quem eu durante sete ou oito anos receitei a pílula, veio à consulta manifestar a surpresa por ter engravidado; pois bem: fiquei a saber nessa altura que durante todo aquele tempo era o marido que tomava a pílula!...,” conta José Ricardo.
Era assim a aventura de exercer medicina longe dos grandes centros e das grandes unidades hospitalares. A experiência humana, com populações culturalmente diversas e diferentes, era igualmente uma forma de aprendizagem, que se sobrepunha quase sempre à aprendizagem clínica.
Havia escassez de meios, é certo, mas havia, em contrapartida, um entusiasmo enorme, com uma capacidade de entrega e de resposta que “nos permitia fazer urgências 24 horas nos sete dias da semana, porque os quatro médicos que chegámos a estar aqui - hoje são dois espanhóis - funcionávamos como equipa muito bem entrosada”, salienta.
O mesmo clínico recorda o pioneirismo da telemedicina na região, que desse modo lhes “permitia responder a alguma situação de doença crónica, diabetes, etc, de forma muito eficaz e rápida.” Refere ainda os avanços conseguidos na cobertura vacinal, no combate à mortalidade infantil e até destaca os investimentos realizados na área da obstetrícia, a qual, todavia, “em consequência do progressivo envelhecimento da população já não é tão rentável” nem tão premente e necessária como outrora.
Por todos esses motivos, insiste em afirmar que “o SNS é um dos bens mais preciosos do 25 de abril, mas que, hoje, infelizmente, corre o risco de se perder, mercê das tentativas sucessivas em se querer que a gestão hospitalar e em medicina seja idêntica à de uma fábrica de sabões”.
Por várias vezes ao longo da conversa, foi assegurando que nunca sentiu a nostalgia da zona de Sintra, onde residia, argumentando com a qualidade de vida que Arronches lhe proporcionou, de “ter possibilitado aos filhos crescerem a brincarem na liberdade da rua e sem isso me causar preocupações ou problemas.”
Lamenta, por outro lado, que com o tempo se tenha perdido “a empatia com o doente - é algo que se perdeu definitivamente”, repete.
Carrossel de emoções
Bernardino Páscoa, 75 anos, faz parte de um grupo de médicos que deram tudo para sair de Lisboa: “Estávamos todos cansados do ambiente do Santa Maria, queríamos algo novo, diferente.” Fez o serviço médico à periferia em Montemor-o-Novo, o internato geral em Évora e ali se fixou desde então.
Movia-o (e aos colegas) “a ideia de querer desenvolver o país.” Explica, no entanto, que “tal escolha não foi política, até porque no grupo havia pessoas com motivações ideológicas muito diversas.”
Os primeiros anos foram um carrossel de emoções e de sentimentos: “Exaltantes, gloriosos, mas também tristes e frustrantes”, revela-nos, na sua residência onde nos recebe, à entrada de Évora. Com a sua voz pausada, adaptada ao tempo lento das conversas longas, revela que se fez médico - tem especialidade em medicina interna e em cuidados intensivos - com o SNS. Ele e os da sua geração, que ansiavam mudar o país e o mundo.
Bernardino Páscoa
Bernardino Páscoa
“Fomos construindo um hospital razoável, instalando a sua primeira unidade de hemodiálise e, juntamente com o meu colega Filipe Froes, a primeira unidade de cuidados intensivos no Alentejo”, recorda. Assim contado até parece que foram só facilidades. Longe disso. No início, “tivemos de lutar contra alguns interesses instalados,” especificando que até “houve médicos que nos hostilizaram, porventura, por se sentirem em perigo... ”.
As boas memórias, no entanto, vão para “o sentimento de gratidão e de reconhecimento por parte das pessoas”, que sentiam não só que algo estava em mudança e para melhor, como, principalmente, “descobriam que, afinal, tinham direito à saúde e a serem devidamente tratadas”, conta Bernardino Páscoa.
Claro que, inicialmente, “os recursos eram escassos, diminutos,” salienta o clínico, sublinhando que, em muitos casos, “as consultas eram em salas da Casa do Povo ou da junta de freguesia, como sucedia no Escoural, onde também fazia domicílios”. Foi numa dessas consultas que ouviu, também, expressões até então desconhecidas para si. “Estar com fezes”, de que já falámos antes, mas acerca da qual voltamos a rir-nos, é uma delas. A outra é quase tão enigmática como ela. “E ter agastaduras?”, pergunta-nos o médico, “sabe o que é?”. Encolhemos os ombros, talvez um leve e breve arquear de sobrancelha, porque Bernardino Páscoa percebeu de imediato o embaraço ou ignorância do seu interlocutor. “São dores de estômago”, esclareceu. E lá nos sorrimos de novo.
Muitos anos depois de toda essa experiência humana e profissional, em que há todo um percurso também de valorização do próprio hospital de Évora, o médico lamenta o rumo que a gestão da saúde está agora a seguir.
O diálogo acabara de dar um salto temporal. A exaltação dos primeiros anos no Alentejo dava agora lugar a um certo tom pessimista, quase a roçar a frustração pelas perdas e regressão de todo um percurso e processo generalizadamente positivo, benéfico, de indiscutível interesse público e de inegável impacto social. A voz de Bernardino Páscoa torna-se ainda mais pausada, o tom não se dirá que quase emudece, mas baixa substancialmente. Parece que as palavras têm medo de sair, de expressar os medos e os receios que lhe assaltam a alma e o espírito. Por fim, como se fosse uma confidência, liberta com tom dorido na voz um derradeiro pensamento: “Sabe..., não éramos brilhantes, mas as coisas funcionavam. Agora, não sei o que vai suceder, mas temo o pior... .”
Se Bernardino Páscoa soubesse que, apesar dos diagnósticos atuais no setor da saúde serem muito alarmistas e graves há, no extremo norte do país, casos notáveis de resistência, como vamos dar conta de um já seguir, talvez o seu pessimismo pudesse ser um pouco mais temperado. O que dá razão à famosa frase do jornalista brasileiro Millôr Fernandes: “Um pessimista é um otimista mal informado”.
Montalegre é uma lição
Sandra Alves e Montalegre foi paixão à primeira vista. Ouvi-la falar daquela vila transmontana, de que os cá de baixo apenas conhecem o fumeiro e a noite das bruxas que se celebra todas as sextas-feiras 13, é algo que nos toca profundamente. Particularmente, quando diz que decidiu ali ficar “por entender que podia fazer alguma diferença”.
Essa decisão foi tomada em 2016, parece que foi ontem, e daí parecer uma opção ilógica, porque surge fora de um tempo em que a ideia de serviço público, na linha do entusiasmo vivido décadas antes pelos que fizeram Serviço Médico à Periferia, é hoje entendido como algo anacrónico, ultrapassado. E, no entanto, a dimensão humanista que transpira das suas palavras, quase sempre sublinhadas por gestos largos, revela-nos uma mulher cuja ação vai muito para lá do mero exercício técnico da medicina. O seu entendimento da profissão parece tirado a papel químico do mural do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, onde se lê: “um médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe”.
Sandra Alves, de 46 anos, que depois de ter a licenciatura em Ciências da Nutrição e Alimentação, feita na Universidade do Porto, decidiu voltar ao 12º ano para, em seguida, entrar em Medicina, na Universidade do Minho, é o exemplo acabado de alguém que tem do exercício da profissão uma perspetiva holística, em que a doença é apenas um dos elementos de uma dimensão mais ampla e complexa que constitui cada ser humano.
Assim se explica a pós-graduação em Prescrição Social que fez na Universidade Nova, cuja formação visa, justamente, olhar para a pessoa de uma forma integrada, ou seja, inserir também na equação a saúde mental e ainda essa misteriosa caraterística que popularmente designamos por felicidade.
Num concelho pobre, mas extenso - do tamanho da ilha da Madeira - onde a medicina privada é ainda incipiente e, “até há pouco tempo, completamente inexistente”, como refere, “todos os dias eu sinto que faço a diferença na vida de alguém; e é aqui que eu faço falta, não é em Lisboa, no Porto ou em outras grandes cidades, onde há muitos médicos”. Não foi com esta finalidade que o Serviço Nacional de Saúde foi criado: chegar a todos e, em especial, às zonas mais carenciadas?...
Sandra Alves
Sandra Alves
Estamos no seu pequeno mas acolhedor gabinete na Unidade de Saúde Familiar (USF) Terras de Barroso, no centro da vila, instalado no interior de um amplo conjunto de contentores. É por aqui que passam muitas das 1439 pessoas que, atualmente, constam do seu ficheiro clínico. Explica-nos, então, que “a qualidade na comunicação, perceber e saber falar com cada utente, usar a empatia na relação médico-doente”, constituem formas imprescindíveis de atuação, em que não existe o recurso à receita eletrónica. De resto, faz notar que “muitas dessas pessoas não veem nem percebem as mensagens que lhes são enviadas para o telemóvel”, o que implica todo um acompanhamento de proximidade que, com o tempo, se transforma numa relação humana de grandes afetos. Panorama que tivemos oportunidade de observar, inclusivamente, na sala de espera, quando anonimamente aguardávamos pela vez, e víamos como as três ou quatro pessoas que antes de nós foram atendidas, eram afavelmente tratadas.
Unidade de Saúde Familiar (USF) Terras de Barroso
Unidade de Saúde Familiar (USF) Terras de Barroso
Assim se percebe a filosofia de atuação de Sandra Alves quando afirma que, para si, “não existe medicina se não for centrada no doente”. Essa ideia de centralidade nas pessoas traduz-se, segundo conta, em atos tão simples como: “Eu olho e toco os utentes, não passo o tempo a escrever e focada no computador. Daí que, por vezes, alguns, de forma emocionada, me digam, quase em jeito de agradecimento, a doutora importa-se.”
Tal não significa uma secundarização da dimensão técnico-científica da prática clínica. A ideia anteriormente sublinhada de sentir que é útil e que “faz a diferença” materializa-se, como especifica, no facto de ser obrigada a “ser multidisciplinar e polivalente: faço pequenas cirurgias, trato situações agudas, entre outras, além das consultas”.
Interlocutor municipal
“Lista de espera” é uma expressão ali desconhecida e, em breve, o município vai lançar um projeto piloto, designado “interlocutor municipal”, que vai funcionar em cada junta de freguesia. No fundo, explica a médica, trata-se de “alguém que possa estar mais próximo das pessoas idosas, que as visite regularmente, veja como estão, confirmar se seguem a medicação prescrita, fazer o levantamento das necessidades de cada uma, etc”. Esta medida, sublinha, “reforça a articulação que já existe e deve continuar entre a USF e a autarquia”.
E para que dúvidas não haja acerca da centralidade que ali, em Montalegre, a medicina tem face ao doente, como ao longo do nosso diálogo Sandra Alves garantiu repetidamente, na sua unidade de saúde, “a partir do dia 22 de dezembro ninguém tira férias, prática também seguida no verão, nomeadamente no mês de agosto, quando a vila e o concelho têm igualmente muito mais movimento”. Esta lição e exemplo devem fazer corar de vergonha algumas zonas, cuja prática é precisamente a inversa.
Numa vila onde tudo é próximo e não há stress, Sandra Alves leva cinco minutos de casa à unidade de saúde onde trabalha. Também estes fatores, insiste, são decisivos para “a qualidade e a atenção no atendimento e seguimento de cada caso”.
No fundo, o segredo é a proximidade e o sentimento de pertença do médico em relação à comunidade que serve e na qual está inserido. Não é um médico ou uma médica estranha àquela realidade – é mais um(a) que faz parte de um todo com o qual se identifica e por isso lhe quer o melhor possível. Porque, como defendia o escritor e médico brasileiro, Moacyr Scliar (1937-2011), o ato médico é, essencialmente, “um ato narrativo”, no sentido em que o doente no momento da consulta não transporta apenas sintomas, mas toda uma história pessoal.
Texto: João Figueira | Arte e Imagens: Beatriz Lencastre e Íris de Jesus






