Nascidos neste século, o 25 de abril de 1974 está para estes jovens adultos como a implantação da República estava para os avós: uma festividade longínqua no calendário. São, porém, mais instruídos que eles, desfrutaram de mais e melhores oportunidades, não foram nem fugiram à guerra e afirmam não conceber a vida sem liberdade.

Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril

Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril

O que fazem e o que pensam hoje os netos de abril?...

Nascidos neste século, a data fundadora da nossa democracia está para eles como a implantação da República estava para os seus avós, aqueles que em 1974 eram jovens adultos: um feriado para celebrar uma festividade longínqua no calendário. 

Ao contrário dos avós, porém, nasceram em liberdade, vivem em democracia, beneficiam dela e, na sua generalidade, são mais instruídos, possuem graus superiores ou estão a caminho disso. Todos os que ouvimos em diversas zonas do país concordam que tiveram mais oportunidades e têm melhor qualidade de vida, sem que isso signifique, automaticamente, um interesse maior pela política, como nos referiu Patrícia Fangaia, aluna de mestrado em Ensino de Educação Física na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã.

Nascida há 23 anos em Castelo Branco, manifesta o seu distanciamento por questões de ordem política, por considerar que “os debates não são normalmente saudáveis”, uma vez que “são pouco esclarecedores, os argumentos são pouco válidos” e os intervenientes “passam a vida a acusar-se reciprocamente”.

Patrícia Algarvio, também com 23 anos e estudante de Comunicação e Relações Públicas no Instituto Politécnico da Guarda, manifesta a consciência de, juntamente com a irmã, serem as primeiras de toda a linhagem familiar a entrar no ensino superior. Daí atribuir relevância ao debate político, por sentir que há diferenças que depois se revelam em oportunidades de vida. Mesmo assim, o seu sentido diplomático, como nos conta, “leva-me a não falar nem debater questões políticas quando estou em família”.

A jovem nascida na Covilhã, mas a estudar na Guarda, tem bem presente no seu processo de consciencialização a circunstância de o pai lhe contar que “ia descalço para a escola”, de uma avó “a vender leite ao domicílio, desde os 15 anos”, calcorreando as ladeiras íngremes da cidade com a grande vasilha de alumínio à cabeça, e ainda da vida difícil do avô operário fabril e do outro prestes a ser preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado).

Na mesma roda de conversa, Guilherme Torgal, 19 anos, aluno de Gestão na Universidade da Beira Interior (UBI), diz que “desde muito novo” se habituou a discutir política. “Em casa - refere - todos nós [ele, a irmã e os pais], embora do mesmo partido, nem sempre estamos de acordo em tudo, como sucedeu recentemente, na primeira volta das presidenciais, em que votei num candidato diferente”.

Esta pequena dissensão, segundo explica, tem a ver “com a maneira como eu vejo e entendo a política: saber ouvir e saber pensar”. E nessa troca de ideias, especifica, “Tem de existir a disponibilidade e abertura para se mudar a forma como se encara e interpreta um problema”. Mas na raiz, insiste, “está esse hábito de discutir sobre política e esta me interessar”.

Patrícia Fangaia. Foto: Zé Pedro Fernandes

Patrícia Fangaia. Foto: Zé Pedro Fernandes

Patrícia Algarvio. Foto: Zé Pedro Fernandes

Patrícia Algarvio. Foto: Zé Pedro Fernandes

Guilherme Torgal. Foto: Zé Pedro Fernandes

Guilherme Torgal. Foto: Zé Pedro Fernandes

Viva a liberdade

Duas ou três semanas antes, no centro de Bragança, Ivo Queijo, 23 anos, aluno do 2º ano de doutoramento na área das Ciências Biomédicas na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, como que antecipara, por outras palavras, o que o Guilherme acaba de dizer: “É preciso olhar a realidade com sentido crítico”. Daí que seja “incompreensível ter-se acabado com a cidadania nas escolas”, argumenta o jovem transmontano, cujos avós nunca aprenderam a ler nem a escrever. 

Ivo Queijo

Ivo Queijo

A seu lado, Nair Fernandes, da mesma idade e que recentemente terminou Medicina Dentária na Universidade de Lisboa, tendo regressado às origens para ali trabalhar, acrescenta a educação sexual como tema igualmente imprescindível e que a escola está a ignorar. Logo outra voz se faz ouvir, sobrepondo-se ao grupo e complementando o raciocínio de Nair: “É que nem todas as famílias são iguais e possuem a informação necessária, o que torna ainda mais importante o papel e a intervenção da escola neste domínio”, reforça Ana Maravilha, também de 23 anos e finalista do mestrado em Educação Especial Inclusiva, no Politécnico de Bragança. 

Da esquerda para a direita: João Fernandes, Nair Fernandes, Ana Maravilha e Ivo Queijo

Da esquerda para a direita: João Fernandes, Nair Fernandes, Ana Maravilha e Ivo Queijo

Na Covilhã, em Bragança e em Viseu, locais onde, de forma aleatória, juntamos pequenos grupos de jovens estudantes, estes não se esquecem nunca de referir o excessivo centralismo que o país ainda vive, não obstante “a descentralização realizada, com inegável impacto positivo para o interior”. Contudo, “a democracia não venceu ainda a ideia de centralismo que subsiste no país”.

Carlos Abreu

O elogio da democracia

Mais do que a dimensão repressiva da ditadura, que não ignoram, preferem valorizar o que há de positivo na democracia - a liberdade, sem a qual não imaginam a vida. Ou, como refere João Gomes, 19 anos, estudante na licenciatura em Publicidade e Relações Públicas, na Escola Superior de Educação de Viseu (ESEV), “só com a democracia conquistada com o 25 de abril podemos ter o futuro que ambicionamos”. Mariana Abreu, 22 anos, sua colega de curso, apressa-se a alertar: “Acrescenta aí as mudanças positivas que a democracia trouxe para as mulheres.”

Mas nem tudo são rosas. Na Covilhã, em Bragança e em Viseu, locais onde, de forma aleatória, juntamos pequenos grupos de jovens estudantes, estes não se esquecem nunca de referir o excessivo centralismo que o país ainda vive, não obstante “a descentralização realizada, com inegável impacto positivo para o interior.” A opinião é de Carlos Abreu, 28 anos, o mais velho de todos quantos ouvimos, aluno de doutoramento em Políticas Públicas, na Universidade de Aveiro, mas nascido em Viseu, para quem “a democracia não venceu ainda a ideia de centralismo que subsiste no país.”

João Gomes

João Gomes

Mariana Abreu

Mariana Abreu

Carlos Abreu

Carlos Abreu

A imigração “é o menor de todos os problemas”, que só por via de “muita desinformação” ganha tanto protagonismo. “Sem dúvida”, apoia Mariana, argumentando que, “se a imigração fosse o nosso maior problema estávamos nós bem.” (...) Mais importante que segregar e atacar comunidades imigrantes, é pensar e debater acerca da sua integração.”

É moda ser racista

Se é verdade que, hoje, os jovens podem frequentar o ensino superior nas regiões onde nasceram e às quais fazem declarações de amor sempre que as circunstâncias permitem, também é um facto, o que sublinha Mariana Abreu: ”O meu pai dizia que universidade era em Coimbra.” O que significa, em seu entender, que “não havia nele essa ideia, essa noção de centralismo” que agora criticam.

Mas já lá vamos ao que cada um(a) pensa sobre a seu próprio território. Antes, impõe-se vaguear e saber como olham e observam a atual realidade do país. E assim que os desafiamos, há um tema que imediatamente salta para a conversa: imigração. 

Para o João Gomes, “esse é o menor de todos os problemas”, que só por via de “muita desinformação” ganha tanto protagonismo. “Sem dúvida”, apoia Mariana, argumentando que, se a imigração fosse o nosso maior problema, estávamos nós bem.” 

Carlos Abreu, por seu lado, considera que “há um extremismo nos discursos” sobre esta questão, sustentando que seria bom que se olhasse para “a inserção das comunidades chinesas, por exemplo”. As quais, a seu ver, “constituem um notável estudo de caso; mais importante que segregar e atacar comunidades imigrantes, é pensar e debater acerca da sua integração.”

“Muitas das pessoas que promovem o racismo fazem-no escondendo-se atrás da liberdade de expressão que antes, é preciso dizer, não havia”, afirma Ana Maravilha, acrescentando que “se há pessoas em cargos de poder a promover esse sentimento, então ele tende a generalizar-se - até parece que é moda ser racista.”

Uns dias mais tarde, na Covilhã, o Guilherme Torgal, porventura influenciado pela sua perspetiva de aluno de Gestão, vai dizer que “é uma evidência que os imigrantes não tiram empregos aos portugueses, até porque, na sua quase totalidade, trata-se de mão de obra barata.” 

Como que a reforçar esta ideia, Patrícia Algarvio, que instantes antes havia dito que “a política está a tornar-se um campo para o discurso de ódio”, refere que a “pousada da juventude na Estrela só funciona por causa da mão de obra imigrante”. Tal não invalida, porém, como ambos defendem, a existência de uma política de controlo e de fiscalização, “até para que as condições de os receber possam ser mais bem asseguradas.” 

As vozes de Bragança afinam em coro pelo diapasão das de Viseu e da Covilhã, mas acrescentam outro problema: racismo e xenofobia. “Muitas das pessoas que promovem o racismo fazem-no escondendo-se atrás da liberdade de expressão que antes, é preciso dizer, não havia”, afirma Ana Maravilha, acrescentando que “se há pessoas em cargos de poder a promover esse sentimento, então ele tende a generalizar-se - até parece que é moda ser racista.”

No seu caso, sabe e sente na pele esse flagelo: “A minha mãe chegou a ser agredida na escola só porque é filha de ciganos”, conta, enquanto vai desfiando outros pormenores familiares que, à sua dimensão, fazem de si uma vencedora numa sociedade que ainda olha com preconceito a diferença. “Os avós do lado da minha mãe são analfabetos, o meu pai estudou até ao sexto ano e a minha mãe até ao nono ano”, prossegue a jovem mestranda, cuja avó paterna “foi para freira, porque não havia dinheiro para a sustentar”. E foi quando estava a uma semana de selar os votos, então num convento em Angola, que conheceu aquele iria ser o seu avô. 

A Nair pega na palavra para dizer que também o seu avô, do lado do pai, “estudou no seminário porque toda a família era pobre”, panorama que, do lado da mãe não era exceção: “Eram oito irmãos, tiveram de emigrar.”

“De burro para escola”

O mais calado do grupo, João Fernandes, com 23 anos e aluno de Engenharia Agronómica no Instituto Politécnico de Bragança, vai acenando afirmativamente com a cabeça. Porém, o que o preocupa verdadeiramente é o presente e o futuro da agricultura e das aldeias - é o mais novo entre as cerca de quatro dezenas de pessoas que ainda habitam Vale de Frades, no concelho de Vimioso. 

João Fernandes

João Fernandes

Filho e neto de agricultores, fala apaixonadamente dos animais e da terra e, neste sentido, diferencia-se de todos os outros, uma vez que transporta consigo, embora ainda estudante, as preocupações do trabalho diário no campo e das vicissitudes do mercado. “Sabe a como está o preço do vitelo? Oito euros o quilo! Quanto paga por ele no supermercado?, pergunta, num tom que tem mais de preocupação e de crítica, que de informação ou desafio.

A Nair aproveita a deixa para dizer que também a sua família tem abelhas, olivais e amendoeiras, “mas metade das colmeias morreram devido ao excesso de calor. ”

A realidade destes jovens, tão desconhecida e até estranha aos olhos de colegas de outras cidades revela a diversidade de percursos, de experiências de vida e, por isso, também de perspetivas. “Em Lisboa - ri-se Nair -, os meus colegas acreditavam que eu ia de burro para a escola!...”

O país é pequeno, é um facto, mas é ainda muito desconhecido por quem o habita. No caso de Bragança, os jovens lamentam que a cidade e a região “apenas sejam notícia pelo frio ou calor excessivos”, assim como “é inacreditável que, ainda hoje, a imagem de Bragança seja, muitas vezes, associada a uma mulher de bigode”, acrescenta Ana Maravilha.

Ana Maravilha

Ana Maravilha

“Não se compara a qualidade de vida que aqui temos”, argumentam a uma só voz os jovens, em cada uma das cidades onde conversamos. Por isso, insiste o Guilherme, “o interior não pode ser esquecido”, sentimento que os colegas de Viseu e de Bragança, igualmente e por mais de uma vez, expressaram.

O glamour da vida no campo

Esta caricatura é resultado da tal visão centralista que, reiteradamente, criticam e lamentam que ainda subsista. Parece não haver país para lá de Lisboa ou do Porto. Contudo, se depender destes jovens, eles e elas não desejam trocar as suas vidas no interior da dita província por nada deste mundo. Ao contrário de Ricardo III, que na célebre peça de Shakespeare, trocava o seu reino por um cavalo, estes netos de abril gostam de viver onde estudam e nos territórios onde nasceram e se fizeram adultos. Não trocam o seu reino maravilhoso, por nada. 

“Não se compara a qualidade de vida que aqui temos”, argumentam a uma só voz os jovens, em cada uma das cidades onde conversamos. Por isso, insiste o Guilherme, “o interior não pode ser esquecido”, sentimento que os colegas de Viseu e de Bragança, igualmente e por mais de uma vez, expressaram.

Este desejo de permanência é também reflexo do desenvolvimento local, que dizem existir. “Bragança está muito melhor, nem se discute”, sustenta Ana Maravilha, para quem “é ridículo dizer-se que nada mudou, quando há 50 anos eu não teria condições para estudar aqui, e boa parte das ruas atuais nem sequer existiam, assim como o próprio Politécnico”, o qual, na verdade, apenas foi criado em 1983 com o seu polo em Mirandela.

Nair Fernandes reforça: “Houve, de facto, um boom a partir dos anos de 1990, com muita a gente a ficar na região a estudar - e aqui é preciso não esquecer a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - e que depois, como é agora o meu caso, acabei a licenciatura em Lisboa e regressei a Bragança”. Mesmo assim, defendem a “necessidade de se criarem incentivos à fixação de pessoas no interior e à captação de mais jovens.”

Nair Fernandes

Nair Fernandes

Hoje, é chique passar um fim de semana ou fazer férias no campo, no chamado turismo rural”, lembram a Nair e a Ana, para depois, com algum sarcasmo, acrescentarem que essas mesmas pessoas “comentam e interrogam-se: como é possível viver aqui?!...”

As duas jovens apontam para o fenómeno da “glamourização da vida difícil do campo e da agricultura”, quando esta atividade, sublinha João Fernandes, que a pratica diariamente, “é muito dura, exigente e tem muito pouco glamour. 

De novo na Covilhã, tanto a Patrícia Algarvio como a Patrícia Fangaia manifestam igual vontade em que os seus projetos de vida passem por se fixarem ali, não obstante a jovem do Politécnico da Guarda tencionar, a breve prazo, fazer uma pós-graduação em Interculturalidades, que a vai obrigar a ir temporariamente para Coimbra.  A mestranda em Educação Física faz ainda questão de alertar para um detalhe que, a seu ver, enferma de alguma injustiça: “Há incentivos aos jovens para virem para aqui estudar, mas não há incentivos aos jovens locais para aqui prosseguirem os seus estudos...”

O Ivo e o João Fernandes não deixam de lastimar, por outro lado, que “quase todos os grandes investimentos são canalizados para Lisboa ou para o Porto”, da mesma maneira que se “deveria olhar com mais atenção para os problemas do despovoamento, sobretudo das aldeias, e para a melhoria dos seus acessos”.

E ao falar em aldeias, fala-se em turismo. Mais uma vez, no entanto, as mesmas vozes apontam para o choque cultural entre o campo e a cidade, como se o espanto e a surpresa de Jacinto, em “A cidade e as serras”, assumisse aqui uma espécie de mito do eterno retorno. “Hoje, é chique passar um fim de semana ou fazer férias no campo, no chamado turismo rural”, lembram a Nair e a Ana, para depois, com algum sarcasmo, acrescentarem que essas mesmas pessoas “comentam e interrogam-se: como é possível viver aqui?!...”

As duas jovens apontam para o fenómeno da “glamourização da vida difícil do campo e da agricultura”, quando esta atividade, sublinha João Fernandes, que a pratica diariamente, “é muito dura, exigente e tem muito pouco glamour”.

A desigualdade nos lucros

Em Viseu, além da qualidade de vida que é unanimemente elogiada, sobressaem as preocupações com os baixos salários face às elevadas rendas de casa praticadas fora da região. Mariana Abreu, que é trabalhadora-estudante, dá o seu exemplo:” Se eu sair de Viseu a ganhar 900 euros, isso é insuficiente para fazer face às exigências [despesas] atuais.” 

Sobressai nas suas palavras uma das maiores contradições do Portugal contemporâneo: jovens com mais e melhor formação, mas sem oportunidades de emprego digno ou de carreiras profissionais à altura das suas competências. “Daí a saída, para o estrangeiro, de grande número de jovens licenciados”, explica João Gomes.

Para Carlos Abreu há, ainda, outra questão a que importa dar a devida atenção: a desigualdade na obtenção de lucros. “Os ganhos dos grandes grupos empresariais são enormes e, todavia, os produtores não veem os seus lucros aumentar. São essas entidades intermédias que têm vindo a ter os maiores benefícios e lucros...”

Tal como o João Fernandes, em Bragança, também o Carlos, em Viseu, defende a valorização do trabalho dos produtores locais, cuja ação ambos consideram estratégica e de primeira grandeza. No subtexto das suas afirmações vislumbra-se, ainda, a presença de uma certa denúncia de injustiça, mais uma vez, entre o campo e a cidade, entre quem produz e vive da sua produção, e o intermediário, aquele que impõe os preços na origem e depois na comercialização.

Se é, hoje, inquestionável que, como alerta Patrícia Algarvio, “muitos dos jovens extremados o são por causa da desinformação que absorvem no Tik Tok e do incentivo ao ódio que por lá circula”, é fundamental, como defende Guilherme Torgal, que “se fale e discuta sobre o que se conquistou com o 25 de abril, porque muitos jovens não têm ideia do que as gerações mais velhas sofreram durante anos com a ditadura”.

Mural à entrada de Baleizão, Beja

Mural à entrada de Baleizão, Beja

Falar, falar sempre sobre o 25 de abril

Estes netos de abril, enquanto microcosmos social, mostram-nos não apenas uma interessante diversidade de experiências e olhares, como, sobretudo, uma unanimidade acerca do valor da liberdade produzida pelo 25 de abril de 1974 e das transformações com impacto positivo resultantes da instauração da democracia. 

Cada jovem escutado herdou narrativas com intensidades diversas sobre a realidade iniciada há meio século. Os pais de Patrícia Fangaia, segundo conta, “pouco” lhe falaram do 25 de abril, ao passo que o pai de Patrícia Algarvio, “um agente da PSP que não se revia na atual demonstração de força e agressividade que, por vezes, vemos”, sempre lhe “falou com entusiasmo do 25 de abril”.

São esses ares desempoeirados que respiramos igualmente junto dos jovens em Viseu e em Bragança, embora cada um(a) olhe e interprete a História e a realidade atual do país segundo o respetivo prisma e consciencialização política. Porque se é, hoje, inquestionável que, como alerta Patrícia Algarvio, “muitos dos jovens extremados o são por causa da desinformação que absorvem no Tik Tok e do incentivo ao ódio que por lá circula”, é fundamental, como defende Guilherme Torgal, que “se fale e discuta sobre o que se conquistou com o 25 de abril, porque muitos jovens não têm ideia do que as gerações mais velhas sofreram durante anos com a ditadura”.

Vem, assim, a propósito, lembrar o que Luís Cília, cantando as palavras de José Apolinário, em 1967, proclamava a quem o escutasse:

"É preciso avisar toda a gente

Dar notícia, informar, prevenir

Que por cada flor estrangulada

Há milhões de sementes a florir."

Imagem da célebre "Queima do Facho" em Coimbra, 2025

Texto: João Figueira | Arte e Imagens: Beatriz Lencastre e Íris de Jesus

Texto: João Figueira | Arte e Imagens: Beatriz Lencastre e Íris de Jesus