Vamos falar de um país irreconhecível e atrasado, onde havia pessoas que nunca tinham visto um médico e adultos que nunca foram meninos. Vamos também falar de transformações luminosas, nesse país. Mas isso não diminui a dor, de quando se olha nos olhos a memória viva do trabalho infantil, do analfabetismo, da fome e do pé descalço. Razões de sobra para escutar essas pessoas que nasceram e cresceram em casas sem água, sem luz, sem saneamento básico, sem escola, sem futuro, sem nada. Que tinham de andar, ainda crianças, quilómetros a pé até à monda ou até à fábrica. Há, por aqui, um intenso odor a fome, a miséria e muito atraso. É o que sucede quando se revisita o Portugal da ditadura, aqui, em peregrinação pelo interior. Quem pode ter saudades do passado?
Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril
Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril
Francisco Velez e os seus amigos de recruta, já sabiam: no café da bomba de gasolina da Caranguejeira, no concelho de Leiria, a sandes e a cerveja fresquinha de cada um eram por conta dos clientes. Estes haviam criado uma regra e, por isso, quem ali estivesse ao final da tarde de sexta-feira, também já sabia ao que ia: quotização coletiva para pagar a bucha aos jovens soldados.
“Era uma forma afetuosa de expressar gratidão”, explica Francisco Velez, hoje com 72 anos, cujas lembranças dessa primavera de 1974 o levam, numa viagem sentimental, a percorrer e a visitar esses espaços onde a presença de um militar era invariavelmente festejada.
O seu grupo assentara praça a 23 de abril desse ano, no Regimento de Infantaria nº7, em Leiria, ou seja, 24 horas antes do “dia inicial inteiro e limpo”, de que nos fala a poesia de Sophia de Mello Breyner. Daí que os soldadinhos que, felizmente, já não iriam, como na cantiga do Zeca, “para o outro lado do mar”, fossem vistos como sendo parte dos bravos do pelotão libertador, com que genericamente era então olhado qualquer militar.
Esse olhar de esperança nos militares que haviam derrubado a ditadura, apesar de ainda manterem a guerra em África, suscitava, no entanto, algum cuidado e insónias por parte de quem se opunha ao conflito ultramarino. Por isso, meses mais tarde, recruta já feita, num dia de setembro de 1974, na camarata da Polícia Aérea e no bar dos instruendos, em Tancos, eis que, misteriosamente, aparecem uns panfletos identificados como sendo uma mensagem da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) aos soldados portugueses.
Nela se exortava os jovens militares a recusarem embarcar, afirmando: “Convosco foi derrubado o fascismo. Convosco há-de terminar a Guerra Colonial.” E terminava com algumas palavras de ordem: “Fim imediato aos embarques; Independência para os povos de Angola, Moçambique e Guiné; Não pode ser livre um povo que oprime outros povos.”
Ainda hoje Francisco Velez, que nos cedeu um exemplar do panfleto, se ri com prazer – ou será saudade? – desses finais de tarde, em que sonhava com um país mais justo e em que o sabor da liberdade foi o primeiro sintoma de mudança.
Ele, que “nem sequer para Portalegre”, ali ao lado de Arronches, onde nasceu e vivia, conseguiu ir estudar, “porque não havia dinheiro nem transportes”, segundo conta, e aos 12 anos já trabalhava “como paquete no registo civil” da vila, ele, tão parco em oportunidades de vida, tinha todos os motivos para desejar um país novo e diferente.
O mesmo se dirá dos moradores de Arronches, que no 1.º de maio de 1974, como que a querer, de forma simbólica, apagar o passado ou, simplesmente, entusiasmados com a ideia de escreverem um renovado presente, decidiram, coletivamente, caiar as fachadas de todas as casas.
É como se as paredes brancas pudessem funcionar, doravante, como folhas novas disponíveis para acolherem sinais de uma História igualmente nova e, desejavelmente, mais justa e humanista.
Para trás, ficava a memória de tempos de escassez, de trabalho sem direitos, de vidas sem perspetivas que pagavam pequenas fortunas aos passadores profissionais para as levarem “a salto” para Espanha e para a França; de crianças que chegavam à escola com fome e que, por isso, diariamente, Amélia Dinis dividia o seu pão com uma colega, na escola de Amarante.
Foi um tempo em que era normal o trabalho infantil, o analfabetismo, as perseguições e as prisões políticas; foi um tempo em que era habitual “um bocado de broa com toucinho, ou uma sardinha a dividir por três”, como várias pessoas que passaram por isso nos contam ao longo da reportagem.
Foi ainda um tempo de populações que nunca tinham visto um médico, que perderam os filhos numa guerra longínqua sem sentido nem glória, que nasceram e cresceram sem água canalizada em casa, sem luz e muito menos saneamento básico. Foi um tempo demasiado longo, em que gerações e gerações cresceram a desconhecer o sabor da vida em liberdade e a nunca levarem para casa um ordenado digno.
Por isso, custa hoje acreditar, na era das cozinhas inteligentes, que houve um tempo, não muito longínquo, em que os eletrodomésticos foram uma ausência notada e notória em muitas casas. Casas onde nunca tinha entrado um fogão, um frigorífico...
O fenómeno tem uma explicação simples: o aumento dos rendimentos e a introdução de direitos laborais, após o 25 de abril, conduziram a uma democratização do consumo, com impacto direto na melhoria das condições de vida e no acesso a produtos até então inacessíveis à esmagadora maioria da população.
Ermelinda Ferreira, de 71 anos, que foi professora de datilografia e caligrafia, mas que, pelo meio, trabalhou no talho da família no mercado municipal da Covilhã, tem bem presente “essa corrida aos eletrodomésticos”. Encolhe os ombros enquanto fala, como que a dizer que nada daquilo era estranho: “As pessoas não ganhavam para ter esses luxos.”
Assegura que “poucas pessoas tinham possibilidade de ter frigorífico ou máquina de lavar”. Mesmo assim, explica que “essa corrida às lojas mais afamadas da cidade - Santos Luiz e Rádio Reparadora – não era sinónimo de se poder comprar e pagar logo. A maior parte das pessoas comprava às prestações”, acrescenta, embora salientando que esse “já era um sinal de que a condição económica melhorara”.
Este inusitado fenómeno está diretamente relacionado com uma das primeiras medidas tomadas no I Governo Provisório, em 27 de maio de 1974 (Decreto-Lei n.º 217/74) pelo ministro do Trabalho, Avelino Pacheco Gonçalves. A medida foi a instituição do salário mínimo nacional, no montante de 3300 escudos (cerca de 165 euros na moeda atual).
Como consequência imediata, não só a economia teve um impulso notável - “em Portalegre, nunca se venderam tantos eletrodomésticos”, recorda, a propósito, Diogo Serra, antigo sindicalista e atual coordenador do Centro Interpretativo José Luís Peixoto, em Galveias - como ganhou dignidade o trabalhador:
“Visitar uma casa de um operário têxtil, do calçado ou da construção civil, era visitar uma casa ou um abrigo quase completamente desguarnecido, não equipado. E era evidente que os casais tiveram pela primeira vez a oportunidade de melhorar a sua vida”, afirmava na edição de 13 de abril de 2014 ao jornal Público, o antigo ministro e autor da proposta do salário mínimo: https://www.publico.pt/2014/04/13/sociedade/noticia/a-criacao-do-salario-minimo-em-1974-foi-um-impulso-para-a-economia-1631964#.
Em dezembro de 1974, o governo liderado por Vasco Gonçalves estendeu o pagamento do 13.º mês (subsídio de Natal) aos servidores e pensionistas, dando a esta remuneração uma universalidade que ela não possuía. Em junho de 1975, é instituído o subsídio de férias. Ainda no mesmo ano, é criado o subsídio de desemprego e proibidos os despedimentos sem justa causa.
Por esta altura, Fernando Tordo lançava o “Fado do Operário Leal”, com letra de Ary dos Santos, cujo tema, intimamente relacionado com as questões sindicais emergentes, tinha o travo de uma cantiga-manifesto em plena sintonia com o ar do tempo:
Meio século depois, todas aquelas medidas, decretadas em governos de inspiração socialista, que mudaram a vida de milhões de pessoas e trouxeram alguma dignidade ao trabalho, continuam intocáveis e absolutamente interiorizadas nas relações e direitos laborais.
Francisco Velez na camarata em Tancos
Francisco Velez na camarata em Tancos
Panfleto da FRELIMO
Panfleto da FRELIMO
Primeiro de maio 1974. Fotografia: Inácio Ludgero
Primeiro de maio 1974. Fotografia: Inácio Ludgero
Arquivo Daniel Balbino
Arquivo Daniel Balbino
Fotografia: Fernando Mariano Cardeira
Fotografia: Fernando Mariano Cardeira
Fotografia: Inácio Ludgero
Fotografia: Inácio Ludgero
Imagem de propaganda salazarista
Imagem de propaganda salazarista
Celebração da memória
Celebrava-se, pois, ao caiar as paredes, em Arronches, o nascimento de uma nova era e de um país novo, sem com isso esquecer o que acabara de ser vencido, de que restavam duros e impressivos sinais. Jorge Seabra, um dos médicos que em 1975 foi fazer o Serviço Médico à Periferia, no concelho de Satão, distrito de Viseu, não esconde o choque de realidade que sentiu ao olhar o cenário de miséria e de carência extrema.
Uma bacia de água para a família inteira
Mais um motivo para a celebração da memória e da sua relevância atual, face a uma conjuntura tão propícia e amiga do cultivo da desmemória e da reescrita da História.
Fernando Pessoa, em “Maravilha-te memória”, antecipava já essa tendência nostálgica pelo que não aconteceu, pelo efabular da História – “Mas tu memória, condizes / Com o que nunca existiu...” -, como se, subitamente, tenhamos regressado à Idade Média para, como então se fazia com os palimpsestos, rasparmos a tinta original da História e do nosso passado comum como país, para reescrever “o que nunca foi”.
Sob a designação genérica e aglutinadora de “Peregrinação interior: cântico do país emerso”, título que descaradamente junta a poesia de Natália Correia (“Cântico do país emerso”) com uma das obras do covilhanense Alçada Baptista (“Peregrinação interior”), em que a religião, a ideologia, a política e a sociedade são temas de sua reflexão em dois volumes, o presente trabalho procura ser uma revisitação ao Portugal da ditadura, mas visita esta guiada por quem a viveu e sofreu. Na primeira pessoa e por pessoas comuns, que raramente tiveram voz ou oportunidade para contar a sua experiência de vida. Sempre pelo interior do país.
Escola Primária da Covilhã (Arquivo José Pereira)
Escola Primária da Covilhã (Arquivo José Pereira)
Família de Agricultores durante a década de 1960 (Arquivo Daniel Balbino)
Família de Agricultores durante a década de 1960 (Arquivo Daniel Balbino)
Não se pretende, todavia, com este trajeto e plano de trabalho, ficar estático a olhar o passado: impõe-se observar e sinalizar retalhos de vidas que mudaram com a democracia, olhar algumas das grandes e fascinantes transformações operadas com o 25 de abril, potenciadas por ele e que se prolongam no tempo, como nos contam os “Netos de abril” e é igualmente percetível em os “Médicos do povo”.
©Alfredo Cunha, SPA, Lisboa 2026 | Fundação Mário Soares e Maria Barroso
©Alfredo Cunha, SPA, Lisboa 2026 | Fundação Mário Soares e Maria Barroso
Sendo a memória e os seus processos demasiado complexos e ela própria objeto de construção – e até de “guerras”, na expressão do historiador italiano Enzo Traverso -, seguimos, neste conjunto de reportagens o princípio da “experiência vivida”, enunciado por Walter Benjamim. Isto é, privilegiou-se o testemunho pessoal, a memória do que foi subjetivamente vivido e cujas marcas o corpo guarda.
Não se pretende, todavia, com este trajeto e plano de trabalho, ficar estático a olhar o passado: impõe-se observar e sinalizar retalhos de vidas que mudaram com a democracia, olhar algumas das grandes e fascinantes transformações operadas com o 25 de abril, potenciadas por ele e que se prolongam no tempo, como nos contam os “Netos de abril” e é igualmente percetível em os “Médicos do povo”.
Sendo a memória e os seus processos demasiado complexos e ela própria objeto de construção – e até de “guerras”, na expressão do historiador italiano Enzo Traverso -, seguimos, neste conjunto de reportagens o princípio da “experiência vivida”, enunciado por Walter Benjamim. Isto é, privilegiou-se o testemunho pessoal, a memória do que foi subjetivamente vivido e cujas marcas o corpo guarda.
A exploração desta revisitação em mais quatro momentos – “Pé descalço, fome e trabalho infantil”, “Médicos do povo”, “Revolução cultural” e “Netos de abril” – procura construir todo um mosaico de vivências suscetíveis de produzir resistências ao processo que Traverso designa por “embalsamento” da História. Ou seja, a celebração da liberdade jornalística e da democracia, diante da ditadura, da perseguição política e da visão única e totalitária da vida e do pensamento, não deve anular a exploração do potencial crítico face aos novos contextos e conjunturas que só uma sociedade liberta das suas grilhetas pode proporcionar e garantir. Ou como costuma nestes casos afirmar o filósofo político Daniel Innerarity, os problemas da democracia só se resolvem com mais e melhor democracia.
Fotografias em galeria (da esquerda para a direita): Ficha da PIDE de Cristina Pinto, Ficha da PIDE de Vasco Paiva, Ficha da PIDE de Jorge Seabra, Comunicado em favor da resistência anti-salazarista (Arquivo Daniel Balbino), Embarque de contigente militar para Moçambique (Fotografi de Fernando Mariano Cardeira), Grupo de soldados portugueses durante a guerra em Angola (Fotografia de José Simões)
País amordaçado, temeroso e subdesenvolvido
Os versos iniciais do poema épico escrito no verão de 1975 por Ary dos Santos estavam longe de ser uma abstrata criação literária do Portugal amordaçado, temeroso e subdesenvolvido anterior ao 25 de abril de 1974.
Amordaçado, porque a censura e a polícia política da ditadura - PIDE - calavam e perseguiam toda a voz minimamente divergente, minimamente pensante. Daí os 30 mil presos políticos contabilizados ao longo das décadas de ditadura. Até no estertor da chamada “primavera marcelista”, em 1973, a PIDE efetuou 561 prisões, segundo a Comissão do Livro Negro do Regime Fascista.
A prisão de Caxias, o forte de Peniche (por onde, no total, passaram 2600 presos) e o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, também conhecido pelo “campo da morte lenta”, foram a imagem de marca da perseguição e tortura de um regime que não tolerava a diferença de pensamento.
Daí que, aos números de prisioneiros referidos, importa juntar ainda os mais de quatro mil presos políticos que, à data de 25 de abril de 1974, havia nas antigas colónias africanas.
País temeroso, porque 90% da população jovem masculina fora, desde 1961, mobilizada para ir combater nas matas de Angola, de Moçambique e da Guiné, onde mais de 10 mil militares perderam a vida e cerca de 100 mil regressaram feridos ou incapacitados.
A esta contabilidade há que acrescentar as cerca de nove mil pessoas que desertaram, entre 1961 e 1973, de acordo com um estudo realizado pelos investigadores da Universidade de Coimbra, Miguel Cardina e Susana Martins, sobre o fenómeno da deserção e da recusa da guerra.
©Alfredo Cunha, SPA, Lisboa 2026 | Fundação Mário Soares e Maria Barroso
©Alfredo Cunha, SPA, Lisboa 2026 | Fundação Mário Soares e Maria Barroso
José Manuel Campos, hoje com 77 anos, que fomos encontrar na aldeia dos Quadrazais, no concelho de Sabugal, foi um desses jovens desertores. Em 1964, a troco de sete contos que lhe emprestou um tio, fugiu para França.
País subdesenvolvido, porque, há meio século, mais de 25% da população portuguesa era analfabeta; 53% não tinha água canalizada; 36% não sabia o que era eletricidade e 40% não possuía esgotos em casa: “A retrete era na rua e o banho tomava-se uma vez por semana, numa bacia”, conta Amélia Dinis, nascida há 74 anos, em Amarante, e cuja casa, “de telhas mas sem forro, até era boa, uma vez que o normal era haver casas ainda piores, cheias de piolhos e com o chão em terra, que se transformava em lama sempre que chovia”.
A casa onde cresceu Albino Dias, eletricista e operário têxtil, hoje com 78 anos, na aldeia de Macieira da Lixa, concelho de Felgueiras, era ainda pior: “Vivíamos no piso térreo, onde havia uma espreguiçadeira, a gamela a fazer de mesa e na mesma cama dormíamos três.”
Ao todo eram 12, 10 irmãos, pai e mãe, a eletricidade “era um candeeiro a petróleo e só havia dois quartos”. A casa de banho era exterior à casa e, para tomar banho, diz que iam “ao rio, uma vez que a água para cozinhar ou beber ia buscar-se todos os dias à fonte.” Só em 1977, garante, “é que tivemos eletricidade”.
As condições eram de tal modo precárias, com carreiros enlameados em vez de ruas, que, “se alguém adoecia, a solução era transportar a pessoa de padiola até ao local onde a ambulância pudesse chegar”, conta Albino Dias, salientando que, em 1973, “nem telefone sequer havia ainda na aldeia”.
Tem isso bem presente, porque se recorda da ocasião em que “um homem transportou, em carro de bois, a mulher ao longo dos seis quilómetros que separam a aldeia do hospital de Felgueiras”.
Dívidas eternas
João Paulo Nunes
João Paulo Nunes
Nascido em 1965, João Paulo Nunes, professor de História contemporânea na Universidade de Coimbra, tem ainda muito presente as imagens de pobreza e de miséria que observava, quando passava férias com os avós, em Pinhel, nos primeiros anos da década de 1970.
Transporta-nos até à aldeia de Quinta Nova, a caminho de Figueira de Castelo Rodrigo, para nos falar das “casas de granito com frinchas, em cujo interior havia um talude onde as pessoas dormiam sem as mínimas condições”. E as ruas, acrescenta, “tinham giestas cortadas no chão, para evitar a lama”. Recorda-se, ainda, “dos miúdos com ranho, descalços e com a roupa toda remendada”.
João Paulo Nunes com grupo de amigos, durante as férias de verão em Celorico da Beira
João Paulo Nunes com grupo de amigos, durante as férias de verão em Celorico da Beira
Arquivo Orlando César
Arquivo Orlando César
Atualmente, nem a vida na aldeia é assim, nem a sede de concelho está carenciada dos equipamentos que, então, não dispunha. O complexo coberto das piscinas municipais e o pavilhão dos desportos, entre outros, constituem a menina dos olhos de Figueira de Castelo Rodrigo, hoje a braços com o problema do envelhecimento e do despovoamento, que representam as principais chagas de todo o interior do país.
Piscinas Municipais Figueira de Castelo Rodrigo
Piscinas Municipais Figueira de Castelo Rodrigo
Mas não era só essa a miséria mais visível. As relações sociais, pode afirmar-se, eram igualmente miseráveis, porquanto eram claramente marcadas por rígidos códigos de desigualdade e de exploração económica. No olival de um dos avôs de João Paulo Nunes, em Celorico da Beira, a apanha da azeitona era feita segundo a regra geral da região: “O falsamente chamado ´contrato a meias´”, afirma.
Pavilhão dos Desportos Figueira de Castelo Rodrigo
Pavilhão dos Desportos Figueira de Castelo Rodrigo
Tal contrato, explica, “consistia em que o proprietário das terras e das oliveiras ficasse com 75% da produção, cabendo os restantes 25% ao conjunto das pessoas que trabalhassem na apanha, o que incluía o respetivo pagamento por todo o trabalho nela desenvolvido.”
Era ainda um tempo em que muitas pessoas, não tendo dinheiro, “pagavam as consultas ao meu avô, que era médico, em queijo, cabritos, marmelos, etc. E o mais curioso”, especifica João Paulo Nunes, “é que essas ofertas correspondiam a uma espécie de dívida eterna, uma vez que todos os anos, ainda que não tivessem ido a nova consulta, as pessoas sentiam-se no dever de fazer as mesmas ofertas!...”
Sem nostalgia do passado
É na escuta acerca destas vidas que melhor vamos perceber, depois, a de José Queijo, transmontano de Vila Flor, que nunca foi à escola, e que só aos 12 anos teve o primeiro sapato – e era de pneu, porque até então andou sempre descalço! Ou a de Maria Teresa Silva, que, aos nove anos, ainda na escola que a custo conseguiu terminar, todos os dias, ao meio-dia, tinha de ir para a monda; ou a vida de Fernanda Isento, operária fabril desde os 10 anos, em Manteigas; ou a de Luis Garra que, desde os 11 anos, já trabalhava como um adulto e, tal como um adulto, cumpria a pé, ida e volta, a meia dúzia de quilómetros entre a casa pobre onde a família vivia e a fábrica, na Covilhã. Vidas que desenvolvemos no capítulo “Pé descalço, fome e trabalho infantil”.
Diante destes fragmentos de vidas pobres, exploradas, desprotegidas, como que em penitência perpétua e habitando um tempo anacrónico, Portugal, como no poema de Ruy Belo – “Morte ao meio-dia” - parece, na realidade, ser “o que o mar não quer”, espécie de excrescência mineral ou acidente geológico, onde “há neste mundo seres para quem/ a vida não contém contentamento”.
Nesse tão Belo quanto desencantado poema que igualmente denuncia a censura e a ausência de liberdade - “a boca é pra comer e pra trazer fechada” –, Portugal surge como um lugar alienado, sem informação, tristonho e fechado a sete chaves:
É a poesia a trazer a vida e as pessoas para dentro dos versos, a dar força e cor às estatísticas, aos livros e às pesquisas académicas. É a poesia, como um dia escreveu Eduardo Lourenço, a desmontar a imagem de “Disneylândia” encenada pela ditadura, em cujo seio jamais havia escândalos, corrupção, problemas ou suicídios.
Maria Alice Samara e Raquel Pereira Henriques, em “Breves Retratos de Portugal no Tempo de Salazar”, descrevem detalhadamente como era a vida por esses dias e nessas “casas frias, escuras, insalubres”, sem “água canalizada, esgotos, luz elétrica nem casas de banho”, que constituíam a paisagem da chamada província.
Fernanda Isento
Fernanda Isento
Mas ouvir na primeira pessoa estes relatos por quem viveu e sentiu na pele essa realidade, esta parece ganhar outra força, outra dimensão, outra espessura.
Fernanda Isento, nascida há 71 anos em Manteigas, é uma dessas vozes sem nostalgia nem saudade do passado. Percebe-se porquê: aos 10 anos, já cumpria, ao sol, à chuva ou à neve, os 30 minutos a pé que levava de casa até à Sotave, fábrica onde trabalhou durante 45 anos e cujo salário inicial era de 10 escudos ao dia – cinco cêntimos ao câmbio atual.
Em casa, o “teto era de zinco e, por isso, ou fazia muito calor ou muito frio”. E esclarece: “Não tínhamos luz, nem esgotos, nem água, e a roupa era lavada no rio.” E no inverno, o que lhes valia “era o braseiro de carvão para estarmos ao borralho”.
Em Montalegre, José Ribeiro, de 61 anos, há 43 condutor na corporação local dos bombeiros, também não esquece o frio e o desconforto das casas. “Neste sítio onde estamos agora [o quartel dos bombeiros], não havia estas casas que vê. Havia umas três ou quatro casas de colmo e o forno do povo, com dias marcados para cada um cozer o pão”, acrescenta.
Arquivo Municipal, um dos modernos equipamentos culturais de Montalegre
Arquivo Municipal, um dos modernos equipamentos culturais de Montalegre
Desafiado a fazer uma comparação entre os tempos da sua juventude e os atuais, não hesita um segundo: “Qual é a dúvida? Antigamente, passava-se muita fome”, garante, indo ao ponto de pormenorizar: “Nessa altura, íamos ao caldeiro dos porcos, lavávamos as batatas...e era assim que vivíamos.” E mais, adianta: “Quando chegava da escola, tinha de ir à lenha. Havia muita pobreza.”
Imagem da área metropolitana de Lisboa | Arquivo Orlando César
Imagem da área metropolitana de Lisboa | Arquivo Orlando César
Desengane-se quem pensar que o cenário era assim apenas na atrasada província. Em abril de 1974, só em Lisboa, havia, segundo dados oficiais, 100 mil pessoas a viver em barracas sem água, luz ou esgotos. E do outro lado do Tejo, um pouco mais a sul, em Setúbal, 11 mil pessoas, 25% da população residente, vivia em bairros de lata. Panorama que a obra “Outro Mundo no Mesmo Lugar: A Cidade das Barracas” (2024) evidencia de forma clara, ao recuperar dados que um relatório confidencial da própria câmara municipal, elaborado em 1970, já continha.
Ir de táxi, paga a câmara
E no ensino? Aí, as diferenças e o caminho andado é descomunal. Já dissemos que, em abril de 1974, mais de 25% da população era analfabeta. E, ao longo deste trabalho, vai ser possível observar como tantos jovens, apesar de terem ido à escola aprender os alicerces da escrita e a junção de palavras que soletravam ao ler, tiveram de a abandonar (ou de não irem além da quarta classe), para irem para o campo ou para a fábrica. Era um tempo em que as crianças se tornavam adultos precoces e à força.
Táxi que diariamente transporta o Lucas de casa para a escola
Táxi que diariamente transporta o Lucas de casa para a escola
Gonçalo apanha o autocarro de transporte municipal para a escola
Gonçalo apanha o autocarro de transporte municipal para a escola
Atualmente, perto de 90% dos jovens conclui o ensino secundário, quando há 50 anos apenas uns escassos cinco por cento o conseguiam. Essa realidade impacta, naturalmente, o acesso à universidade. Em 1974, de acordo com dados da Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência, apenas um por cento da população lá chegava. Meio século mais tarde, o número é sete vezes superior.
Diogo Serra, animador cultural e uma vida inteira dedicada ao sindicalismo na CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional), com quem falámos em Galveias, onde é o atual coordenador do Centro de Interpretação José Luís Peixoto, exemplifica com o seu caso: “Licenciei-me aos 45 anos e, mesmo assim, tive de estudar e de trabalhar ao mesmo tempo. Os meus filhos, bem jovens, têm todos licenciatura”, refere.
Para quem diz que, nos últimos 50 anos, se andou a marcar passo e é só corrupção, os factos desmentem categoricamente essa narrativa mentirosa. Mais: ao contrário da prática da ditadura, que “roubava” as crianças à escola, a realidade democrática apoia, incentiva e investe na educação dos jovens.
Por todo o país, há exemplos notáveis, como os que observámos em Arouca e em Vinhais, onde as respetivas autarquias providenciam o transporte, em autocarro ou táxis, dos jovens residentes nas aldeias mais distantes. Ao invés do passado, como nos contou Custódia Oliveira, 71 anos, natural de Cabreiros, em plena serra da Freita, onde nasceu e cresceu e em que “havia alunos que tinham de andar quatro a cinco quilómetros a pé, se queriam ir à escola”, isso não existe mais. Ao ponto de, por exemplo, a criança existente em Quintanilha e que, diariamente, tem de ir para o infantário de Gimonde, o fazer através de um táxi pago pela autarquia de Vinhais.
Mas estamos ainda em Arouca. Aqui, os filhos de Anabela Gomes, residente no lugar do Viso, na aldeia de S. Miguel do Mato, e o filho de Anabela Jacinto, em Rio de Frades, a uns bem contados 25 minutos de curvas e contracurvas da sede de concelho, são exemplos que testemunhámos dos apoios hoje existentes.
Todos os dias, pelas 8h25, é ver o Lucas, de sete anos, a entrar com a sua mochila para o táxi, que o vai levar à escola de Fermedo, de onde regressa pelas 17h15. A irmã, Sabrina, que já anda no 12º ano e com um olho no ensino superior, beneficia do mesmo sistema de transporte pago pelo município; no seu caso, para a escola secundária de Escariz, que fica a 15 quilómetros de má estrada, do Viso, onde vive.
O mesmo se passa com o Gonçalo, de 12 anos, filho de Anabela Jacinto, que de manhã e ao final da tarde, tem o autocarro à sua espera, já meio cheio de outros adolescentes. Para a mãe, atualmente a fazer um curso de formação profissional na área da Geriatria, em Arouca, é um descanso.
Rio de Frades, onde residem, é uma aldeia sem comércio, com meia centena de habitantes (a pessoa mais idosa tem 89 anos) e onde os dois botequins que por aqui existem apenas funcionam no verão. Apesar disso, o acesso à escolaridade e a possibilidade de o Gonçalo prosseguir nos estudos são francamente maiores e melhores do que no passado.
Como, aliás, se confirma pelo historial da geração de Custódia Oliveira, que na aldeia dos Cabreiros, também no concelho de Arouca, foi a “única do seu ano a terminar a escola e a ter possibilidade de prosseguir os estudos”.
O mesmo apoio fomos encontrar em Vinhais – que, como Arouca, são casos aqui referidos como meros exemplos de uma prática generalizada em todo o país – em cujo município existem cerca de 400 estudantes, do pré-escolar ao 12.º ano.
Roberto Afonso
Roberto Afonso
Roberto Afonso, que ali dá aulas de Português e de Inglês há 31 anos, destaca “a bolsa anual, no valor de mil euros, que a câmara atribui a cada jovem local que ingresse no ensino superior” e ainda a “gratuitidade tanto no transporte escolar diário como no acesso aos manuais escolares”.
Centro Cultural dos Condes de Vinhais
Centro Cultural dos Condes de Vinhais
Na cafetaria do Centro Cultural dos Condes de Vinhais, onde conversamos, é visível, neste final de tarde de fevereiro, a azáfama dos jovens que ali frequentam e dispõem, gratuitamente, de aulas na escola municipal de teatro e de música. “Onde é que, no litoral, há estas facilidades tão acessíveis?”, pergunta, em tom de desafio, Roberto Afonso, ao detetar o olhar curioso que deitamos aos magotes de miúdos que vão passando.
Mural na rua principal de Vinhais
Mural na rua principal de Vinhais
E, na passada, ainda acrescentou à lista a possibilidade de qualquer jovem ou menos jovem poder ter aulas gratuitas de natação, no moderno complexo de piscinas da vila.
É esta afetividade pela terra, não obstante “a escassez de investimento que ainda é feito no interior” e, no caso de Trás-os-Montes, segundo observa o mesmo professor, “o esteriótipo do atraso que frequentemente lhe surge colado”, que encontramos em cada local.
“Sem o 25 de abril tudo me estava vedado”
A jornalista Cláudia Oliveira, 41 anos, e atualmente em comissão de serviço do jornal O Jogo, a desempenhar as funções de vice-presidente do município de Arouca, é um desses casos de vida que, afirma, “tudo deve ao 25 de abril”.
Órfã desde os cinco anos, quando o pai faleceu num acidente de trabalho, deve às bolsas de estudo que a câmara municipal e a junta de freguesia lhe foram atribuindo ao longo do tempo, a fuga ao destino mais provável: “Ter acabado na caixa de um supermercado.” Não acabou, embora, ao longo dos anos, tenha trabalhado em supermercados, nas férias e aos fins de semana, porque havia toda uma economia doméstica a defender (eram quatro irmãos e a mãe, viúva).
Cláudia Oliveira
Cláudia Oliveira
Daí referir que o trabalho autárquico que agora desenvolve representa, simbolicamente, “uma forma de retribuir o apoio e a solidariedade que Arouca sempre me deu”. Porque, “sem essa ajuda”, insiste, “teria sido impossível prosseguir os estudos, ir para a universidade e obter uma licenciatura”. Donde, conclui, “Sem o 25 de abril tudo isso me estava vedado.”
Cláudia Oliveira
Cláudia Oliveira
Ensino superior descentralizado
Encontrámos muitos exemplos desses no nosso caminho. Exemplos de mais oportunidades, de jovens hoje a estudar na universidade ou nos politécnicos, cujos pais e avós não terminaram o ensino secundário e, em muitos casos, nem o preparatório. Logo, com outras possibilidades e perspetivas de vida. Estórias que os “Netos de abril” nos contaram para aqui vos darmos conta delas.
O que se infere, desde logo, atendendo ao número de estabelecimentos de ensino superior que foram sendo criados após o 25 de abril, de que a Universidade da Beira Interior (Covilhã) e a Universidade do Alto Douro e Trás-os-Montes (UTAD), entre outros, são exemplos marcantes.
Vítor Alves, 69 anos, ex-professor de História Económica, no Instituto Politécnico de Bragança (IPB) e na UTAD, realça, justamente, “o impacto positivo que a oferta formativa teve nestes territórios do interior”. Ideia, aliás, que esteve no centro das comemorações dos 40 anos da fundação da UTAD, em março deste ano, onde por diversas vezes foi destacado o seu papel enquanto motor decisivo no processo de desenvolvimento regional, de maior democratização no acesso ao ensino superior e como pólo de atração de massa crítica.
Vitor Alves
Vitor Alves
Vítor Alves é um desses casos, uma vez que toda a sua vida estava organizada na zona de Coimbra, em cuja universidade se havia formado. Quando, na sequência da criação do IPB, em 1983, lhe é feito o desafio para ali ir lecionar e prosseguir a carreira académica, em Bragança, não hesitou. Talvez as suas origens familiares transmontanas, do lado da mãe, tenham, subconscientemente, pesado na decisão. Certo é que, à semelhança de outros docentes e investigadores, fez uma aposta pela descentralização. Seguidamente, ainda haveria de acumular com a docência em Vila Real, na UTAD.
Fala, portanto, por experiência própria e vivida. “Até à criação do IPB e da UTAD, os jovens destas zonas, se queriam prosseguir os estudos, tinham de ir para Braga, Porto ou Coimbra”, salienta Vítor Alves, sustentando que tal panorama suscitava, desde logo, “dificuldades e desigualdades nas possibilidades de acesso ao ensino superior”. Desigualdades e dificuldades que Fernando Calado assinala dos seus tempos de jovem estudante em Bragança.
Esta ideia é, de resto, corroborada, em “Netos de abril” (um dos capítulos da presente reportagem) que, tanto em Bragança, como na Covilhã e em Viseu, onde falámos com grupos de jovens estudantes, todos eles destacaram a importância e a vantagem de, nas últimas décadas, terem surgido nas suas regiões instituições de ensino superior, anteriormente inexistentes.
É exatamente por aí que vai o raciocínio de Hugo Rodrigues, de 47 anos, músico e professor na Escola Profissional de Arte de Mirandela e no Conservatório de Música e Dança de Bragança. Em 1990, foi aluno da primeira turma daquela escola, longe de imaginar que dali iriam sair músicos que, hoje, são nomes firmados em orquestras na Suíça, na Áustria e na Finlândia.
Hugo Rodrigues
Hugo Rodrigues
Notícia no jornal escocês aquando de um espetáculo da Esproarte no Festival da Juventude de Aberdeen, em 1996.
Notícia no jornal escocês aquando de um espetáculo da Esproarte no Festival da Juventude de Aberdeen, em 1996.
Primeira turma da ESPROARTE
Primeira turma da ESPROARTE
O violinista David Seixas, um virtuoso e, porventura, o nome mais emblemático de todos quantos, até agora, se formaram na Escola de Mirandela – atualmente, com 140 alunos - é hoje uma figura destacada na orquestra finlandesa de Lohan Kaupunginorkesteri. Sem a presença da escola transmontana de música na região onde vivia, dificilmente teria tido a oportunidade de aprender o instrumento e de, posteriormente, começar a construir uma carreira internacional.
David Seixas
David Seixas
David Seixas
David Seixas
O mesmo se pode dizer da ação desenvolvida pela Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Carvalhais/Mirandela (EPA). Passado o período em que teve de se bater contra “o descrédito do ensino profissional”, segundo revela o seu diretor, Marcelino Martins, a EPA “tem vindo a afirmar o seu impacto, desde a década de 1980, em toda esta região interior Norte do país”.
Sem deixar de salientar o facto de “o enólogo do ano de 2020 ter sido aluno da EPA”, o mesmo responsável destaca as sucessivas gerações de técnicos agrícolas aqui formados, o que se traduz em formas renovadas de olhar e de rentabilizar a agricultura.
Trabalho que a UTAD, mercê da sua investigação científica, igualmente potenciou, com sinais evidentes na “reconversão da área de produção do vinho do Douro, com reflexos muito positivos, tanto na área da enologia, como através da introdução de novas técnicas de plantio”, como especifica Vítor Alves.
Por outro lado, a EPA presta, agora, especial atenção às economias conectadas com o turismo ambiental, rural e com a agropecuária. O que significa que os seus atuais 200 alunos, ainda de acordo com Marcelino Martins, “saem daqui com o capital de conhecimento necessário para responder às exigências hoje colocadas por uma agricultura muito mais mecanizada”.
A chaga do despovoamento
Há, porém, um problema grave por ali, impossível de disfarçar: o despovoamento. Se os cerca de 10 milhões de pessoas que, em números redondos, constituem hoje a população de Portugal são insuficientes para dinamizar, como seria desejável, o mercado interno e para acorrer a todas as necessidades de trabalho, nas zonas do interior o cenário é muito mais preocupante.
Observa-se, neste processo, um estranho paradoxo: nunca se viveu tão bem nas cidades e vilas do interior; nunca estas estiveram tão bem equipadas em termos de instalações desportivas, culturais e de lazer; jamais beneficiaram de acessos e de vias de comunicação como as que hoje possuem; a qualidade da habitação é a melhor de sempre e o comércio, também. E, no entanto, os seus processos de despovoamento - expressos, desde logo, nas 246 escolas primárias que, desde o início deste século, encerraram em todo o distrito de Bragança - têm progredido ao longo dos anos, na proporção direta dos investimentos feitos nos respetivos territórios.
Mas uma coisa é o esforço - por vezes, denodado -, das autarquias na valorização dos seus espaços; outra, é a ausência de políticas, ou tomadas de decisão políticas governamentais, como foi o caso do novo mapa judiciário de 2014 (processo que mereceu um conjunto de reportagens do sinalAberto: https://gulbenkian.pt/investigacao-jornalistica/vitalino-jose-santos/), que têm tido repercussões sociais e económicas de elevado impacto local.
Impacto esse que tem reconhecidamente provocado um visível desgaste e erosão nesses territórios, aumentando as assimetrias existentes. Isso mesmo tem sido reiteradamente denunciado por autarquias e até pela Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP).
Não deixa, aliás, de ser curioso observar, dentro na mesma linha crítica, as declarações feitas em fevereiro deste ano por Carlos Tavares - foi ministro da Economia no XV Governo Constitucional, liderado por Durão Barroso (2002-2004), a que se seguiu uma carreia de 11 anos na presidência da CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) -, que vem alertar, agora na qualidade de presidente da Associação Círculos de Estudo do Centralismo, que “a Constituição está a ser ignorada há 50 anos”.
Partindo do postulado constitucional que prevê a existência de municípios, de freguesias e de regiões, Carlos Tavares considera que é fundamental haver um debate “desapaixonado” sobre a questão da descentralização e da regionalização (tema que as recentes tempestades suscitaram de novo), uma vez que “há pouco estudo sobre por que é que o país é tão desigual, por que é que tem um desenvolvimento tão assimétrico entre o litoral e o interior”, afirmou, na apresentação pública de uma conferência que vai ter lugar em março deste ano, na Faculdade de Economia do Porto.
A avaliar pelos nomes dos participantes com conhecido passado e responsabilidade política e governativa – Miguel Cadilhe, Daniel Bessa, Elisa Ferreira, Rui Rio e o atual ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida –, as expetativas quanto a resultados efetivos devem ser baixas. Quem não se lembra ainda do famoso Movimento Pelo Interior, criado em 2017, e que, passado um ano, apresentou no Museu dos Coches, às três principais figuras do Estado – Presidente da República, presidente da Assembleia da República e Primeiro-Ministro – um documento que haveria de seguir o trajeto de muitos outros que o antecederam, a gaveta?
O cidadão comum que vive estas realidades tem dificuldade em entender tais impasses. Entre as várias opiniões que ouvimos, destacamos a de Fernando Calado, antigo professor de Sociologia, que habita na aldeia de Milhão, a 20 quilómetros de Bragança, onde vai entretendo a reforma com o turismo rural, que defende a aplicação de “uma discriminação positiva”.
Assim, critica a “ausência de vontade política para promover o desenvolvimento do interior”, mas considera também que “a população rural nunca viveu tão bem”. E é por isso, como argumenta, que “ela não é muito reivindicativa, porque ao contrário do passado, já lá vai o tempo de dividir uma sardinha por três pessoas”.
Orgulhosamente acompanhados
O primeiro grande empurrão para a transformação do país começou em 1980, com a atribuição de avultados apoios financeiros ao seu desenvolvimento. Em breve, a paisagem nacional veio a cobrir-se de grandes painéis, onde quer que houvesse uma obra, a informar que ela era feita com o apoio do FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional).
Esse apoio era já uma consequência da aceitação, por unanimidade, em reunião de Conselho de Ministros da Comunidade Económica Europeia (CEE), a seis de junho de 1978, do pedido formal de adesão de Portugal à então CEE. Era a versão contemporânea do “ouro brasileiro”, mas desta vez distribuído pelo todo nacional e com sentido mais democrático.
Portugal começava, finalmente, através dessas linhas de financiamento, a resolver muitas das enormes carências herdadas da ditadura: saneamento básico, água canalizada, construção de estradas e de equipamentos sociais e culturais, etc. Desde 1986, data de entrada em vigor do Tratado de Adesão de Portugal à CEE, as várias regiões do país foram objeto do investimento de 95 mil milhões de euros, segundo dados da Comissão Europeia. De acordo com a mesma fonte, sete mil projetos de investigação científica receberam um total de perto de três mil milhões de euros.
Ao invés de um passado, em que se glorificava a política do “orgulhosamente sós”, o país, agora orgulhosamente acompanhado, crescia, desenvolvia-se e assumia políticas de ação contrárias a qualquer ideia de isolamento.
A integração europeia foi, ela própria, um projeto de grande alcance político, independentemente dos efeitos secundários que também provocou e cujos contornos não deixam de, amiúde, serem debatidos na esfera pública. Mesmo assim, nunca a recuperação do país, face ao enorme atraso em que estava, teria sido tão rapidamente concretizada, sem a injeção dos apoios financeiros provenientes da comunidade europeia.
Contrabando e fuga “a salto”
As carências eram tantas e tão gritantes que, pouco depois do 25 de abril, as próprias Forças Armadas andaram a abrir acessos para aldeias aonde não chegava qualquer estrada. Este empenhamento contava, igualmente, com a disponibilidade das populações locais, como sucedeu em Foios, aldeia do concelho de Sabugal, no distrito da Guarda, onde nessa época “não havia água, telefones, estrada, nada”, assegura José Manuel Campos, eleito presidente da junta de freguesia local, em 1976.
As pessoas viviam à base “do contrabando de barriga”, expressão que o nosso interlocutor de imediato traduz: “Fazia-se contrabando, e todos fazíamos, para matar a fome.” À mesa do TrutalCôa, restaurante situado num viveiro de trutas, próximo da aldeia dos Quadrazais, juntinho à linha que separa Portugal de Espanha – o que é visível pela quantidade de comensais espanhóis que animadamente almoçam no mesmo espaço –, ficamos a saber que José Manuel Campos também tinha ido “a salto” para França, para fugir à guerra colonial.
Professor primário reformado, hoje com 77 anos, é uma das figuras tutelares da região. Palmilhou os caminhos do contrabando para fintar a fome e a pobreza, andou por fora e regressou a Foios, em 1975, para aqui se fixar em definitivo. Ao longo de mais de duas décadas foi sucessivamente eleito presidente da junta de freguesia.
Desafiado a recuar no tempo, recorda as perseguições da Guarda Fiscal Portuguesa, embora considere que “os carabineiros espanhóis, que chegaram a matar portugueses a tiro, não mostravam respeito pela condição humana.”
Foi uma versão muito semelhante a esta que escutámos em Réfega, aldeia da freguesia de Quintanilha, no concelho de Bragança, onde Raquel Rodrigues, também antiga professora primária, mulher e filha de antigos guardas fiscais, salienta “o terror dos carabineiros que perseguiam, de forma implacável, os contrabandistas”. E, sem o menor esforço de memória, sinaliza “um carabineiro conhecido por ´metro e meio´, dado ser muito baixo”, como sendo o mais temível de todos.
Mas diversamente ao que o professor de Foios afirmara, Raquel Rodrigues, que tem a mesma idade dele, conhece estórias de perseguições violentas feitas pelos policiais portugueses. Recorda, aliás, a peripécia muito conhecida na zona de “um guarda fiscal que, ordenando a um contrabandista que parasse, este, porque era surdo e não terá ouvido a ordem, prosseguiu, acabando por ser mortalmente atingido a tiro”. O acontecimento foi de tal modo sentido na vizinha aldeia de São Julião de Palácios, onde residia o homem alvejado, que ainda hoje existe no local uma cruz em sua homenagem.
Como em toda a zona raiana, é claro que o contrabando era uma atividade regular. Até a mãe de Raquel, casada com um guarda fiscal, não fugia à regra. “No seu ofício de costureira, ela fazia roupa com a ganga que trazia de Espanha”, conta a filha, entre duas boas gargalhadas, sublinhando, inclusivamente: “Até eu fui contrabandista!”
Mais arriscada que esta ilegal transumância humana fronteiriça era a atividade dos passadores, sempre debaixo do mirada ameaçadora da PIDE. Homens conhecedores do terreno e com a sabedoria e o golpe de vista dos velhos pisteiros, os passadores pegavam em magotes de gente desejosa de fugir da pobreza e de chegar a França, o Santo Graal de grupos que não sabiam uma letra nem palavra fora do Português arrevesado com que comunicavam.
José Queijo, de quem já falámos, e João Manuel Campos viveram esses dias de incerteza pagos a peso de ouro: quatro e sete contos, respetivamente. “Até o pároco da aldeia ajudava a passar pessoas”, revela Fernando Calado, ex-professor e grande conhecedor de toda a zona raiana transmontana. Salienta que, à época, “ser passador era quase exercer um serviço social”.
Porém, nem sempre as coisas corriam como programado, porque também havia, entre os passadores, quem se aproveitasse da situação e da ignorância das pessoas.
Fernando Calado, em cuja cave da casa dos pais muitos homens, ao longo dos anos, ficaram escondidos e pernoitaram, aguardando que os viessem recolher para os levar até Espanha, conta que, como perto de Bragança“havia um sítio chamado França, alguns passadores abandonavam aí as pessoas, dizendo-lhes, apontando para a placa, que já estavam em França”.
Fernando Calado
Fernando Calado
José Manuel Campos nos Quadrazais
José Manuel Campos nos Quadrazais
Imagem do Grupo Cultural e Recreativo Réfega
Imagem do Grupo Cultural e Recreativo Réfega
Raquel Rodrigues
Raquel Rodrigues
Na aldeia do autarca multitask
Referimos há pouco os apoios que o município de Vinhais presta aos jovens, a que se pode juntar a qualidade dos equipamentos culturais e de lazer que a vila oferece. Pois bem: estamos diante do concelho mais envelhecido do país. Perto de 50% da sua população (46,3% para sermos exatos) tem mais de 65 anos e o número de jovens com idades inferiores aos 15 anos não chega à meia centena, segundo dados da PORDATA.
Também é verdade que o país, no seu todo, está mais envelhecido. Se, em 1974, havia 35 idosos por cada 100 jovens, em 2022 essa proporção tinha sofrido uma enorme inversão: 184 idosos por cada 100 jovens, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Existe, porém, uma freguesia em Vinhais, onde a política de proximidade é levada até às últimas consequências, atendendo à idade avançada dos seus cerca de 60 habitantes e, em especial, devido à ação do seu presidente de junta.
Chegamos a Edral depois de 20 a 25 minutos de curvas por uma estrada de bom piso e com uma moldura paisagística de tirar a respiração. Monte de um lado, monte do outro, muito verde, um verde intenso, e a estrada no meio, sempre em frente, como se estivéssemos a entrar montanha adentro. Que sensação... Lá chegados, foi seguir a placa que há na rua principal e estamos na junta. Ou devemos dizer CTT? Pouco importa.
Porque ali, o presidente da junta, João Vila, conversador à maneira antiga, apesar da juventude dos seus 54 anos, acumula funções: autárquicas, funcionário dos CTT, homem de recados, um faz-tudo, inclusive muda lâmpadas, arranja antenas de televisão, desbloqueia telemóveis, trata das reformas e da renovação de carta de quem lhe pede, vai à farmácia aviar receitas, ao supermercado da sede de concelho sempre que necessário, que ali, em Edral, onde 90% da escassa população tem mais de 75 anos, o comércio são dois botequins, um deles acumulando com uma atividade bem mais promissora: funerária.
João Vila
João Vila
Café Central, Edral
Café Central, Edral
Sobressai, assim, o papel multitask do autarca.
Papel esse de que Preciosa Gonçalves, de 78 anos e um dinamismo de se lhe tirar o chapéu, aproveita na hora de recorrer aos bons préstimos do presidente da junta.
O peso do silêncio nas poucas ruas da aldeia - apenas nos cruzámos com uma pessoa – impressiona quem não está habituado áquela doce melodia da vegetação a dançar ao som do pouco vento que se fazia sentir.
A aldeia, que na viragem da década de 1960 para 1970 chegou a ter 859 habitantes, num tempo em que “tinha de se ir de cavalo buscar o médico, que os carros não chegavam aqui”, como recorda João Vila, é hoje pasto privilegiado para o único rebanho de ovelhas – com o qual nos cruzámos também.
Passado este inusitado encontro, o silêncio regressa progressivamente à rua. Pensando melhor, talvez não seja silêncio o que escutávamos, mas, sim, o som do despovoamento. Poderíamos gritar que nem o eco seria escutado na solidão daquele recanto do reino maravilhoso. Que poderia ser também a última fronteira do que habitualmente chamamos de civilização, símbolo frágil de uma realidade que, como sucede com a vazia aldeia de Santo André, em Mogadouro, muitas outras estão na fila para, a curto prazo, ficarem igualmente desertas.
Isto mesmo nos iriam dizer, dois dias depois, em Bragança, Vítor Alves e Fernando Calado, sublinhando que, caso “não haja uma política de repovoamento” das aldeias - “e várias são as que já estão completamente desabitadas”, como frisa Vitor Alves –, o abandono será completo e irreversível.
Envelhecimento ativo e de qualidade
A dança dos números, como na valsa, suscita sempre a participação de dois parceiros, isto é, a possibilidade de dois olhares. Os dados referentes ao envelhecimento que, por um lado, é visto com um problema, podem ter também uma leitura benigna: em 1970, a esperança média de vida era de 67 anos. Agora está nos 80.
O envelhecimento, afinal, dá-se por um bom motivo. O problema, como Sandra Alves, médica em Montalegre - concelho que apresenta uma mancha muito significativa de pessoas com mais de 65 anos -, é quando o envelhecimento é sobretudo um tempo de amargura, como parece ser o caso, ali, de muitas pessoas, que, de facto, “vivem mais, mas sem qualidade”.
Se tudo depender do acesso regular aos cuidados de saúde, em Montalegre, o cenário não é preocupante. Estes apresentam uma eficácia muito acima da média do país. No Serviço de Urgência Básica (SUB) o objetivo é nunca ultrapassar os oito minutos de espera e, no caso da pulseira laranja, o atendimento médico não excede os 10 minutos.
A eficácia é de tal modo reconhecida na região que a enfermeira Solange nos assegura ser frequente recorrerem ao SUB cidadãos de concelhos vizinhos,
como os de Boticas ou de Cabeceiras de Basto; e que “não há utente em Montalegre que não tenha médico e enfermeiro de família”.
É, precisamente, para tentar dar qualidade de vida aos seus cidadãos que muitas autarquias promovem e lançam programas e iniciativas especialmente vocacionadas para as pessoas mais velhas. Emília Adão, de 71 anos, minhota de nascimento e aí tendo trabalhado toda a vida entre a restauração e como auxiliar de quartos de hotel - nessa condição chegou a cruzar-se, em Viana do Castelo, com o famigerado agente da PIDE Rosa Casaco –, porque a quarta classe, que só conseguiu concluir mais tarde e à noite, nunca lhe permitiu melhores empregos.
Eram seis irmãos. “A mais velha nunca foi à escola, a minha mãe também não”, conta-nos, enquanto faz horas para o início de mais uma atividade na Academia Sénior da Lixa. Ali, socializa, canta, faz teatro e até aprendeu a jogar xadrez. Diz que, “se não fosse este espaço”, não saberia como ocupar o tempo.
Albino Carvalho, de 74 anos e vários empregos ao longo da vida, é também um frequentador assíduo da mesma Academia, situada a uma centena de metros da praça principal da Lixa. Afirma que lhe “faz bem a socialização” que ali encontra.
“Palavra-puxa-palavra”, e o inesperado acontece: ficamos a saber que a sua melhor e mais impressiva recordação se situa lá longe, em Camambatela, província de Quanza Norte, em Angola, onde prestou serviço militar, na Companhia 6323. Até aqui, nada de especial. A surpresa vem a seguir.
Enquanto operador cripto da especialidade de transmissões, foi chamado num certo dia 25 de abril para decifrar uma mensagem que surgia com carácter de urgência. E que mensagem era essa?: “Fui eu que anunciei ao capitão o golpe de 25 de abril de 74”, recorda a rir, porventura pela felicidade que a data lhe trouxe: “Daí a uns dias estávamos em Luanda e, em novembro, chegava a Portugal.”
Maria Policarpo é outra “academista”. O seu percurso de vida é um carrossel. Esteve emigrada, por duas vezes, em França, para onde foi com a quarta classe feita. No regresso, aproveitou o programa Novas Oportunidades para chegar ao nono ano, equivalência que lhe foi atribuída com base na experiência de vida e de trabalho.
Explica que vem de uma família de agricultores, mais dados à sobrevivência que ao estudo, que isso de ir à escola – eram sete irmãos – era um luxo. Ainda maior que o de terem água canalizada em casa, carência que fez parte do seu crescimento. Agora, o “melhor tempo desta vida de reformada”, salienta, “é passado na Academia.” “Sem esta convivência e sem as atividades que podemos desenvolver, passaria os dias parada em frente à televisão...”, observa.
Que tipo de Academia Sénior é esta, afinal? Ficamos a saber que se trata de um projeto municipal criado em 2023, com o objetivo de combater o isolamento e de promover o envelhecimento ativo. Aspetos que, embora por outras palavras, os “academistas” com quem conversámos nos haviam alertado.
Tal projeto, inteiramente gratuito, funciona no espaço físico do Centro Intergeracional da Lixa, no concelho de Felgueiras, onde os cerca de 80 inscritos (a mais velha tem 91 anos) se dividem pelas mais diversas atividades e disciplinas. Do xadrez à poesia popular, passando por disciplinas como Cidadania, Canto, Teatro, História Local, Ciências Experimentais e Pintura, até propostas centradas em bordados e em malhas, bem como na informática e atividade física, entre muitas outras, constituem o naipe de oferta que cada inscrito pode escolher.
No fundo, um projeto muito similar aos de vários outros municípios que vêm pondo em prática, frequentemente sob a designação de Universidade Sénior.
Emília Adão
Emília Adão
Albino Carvalho
Albino Carvalho
Maria Policarpo
Maria Policarpo
Edifício do Centro Cultural da Lixa
Edifício do Centro Cultural da Lixa
Pela sua saúde!
Outos números que, nos últimos anos, têm sido objeto de crescente preocupação situam-se na área da Saúde. O número de médicos e de enfermeiros, sempre insuficiente, aumentou quase cinco vezes, sem que, paradoxalmente, essa estatística tenha reflexos proporcionalmente positivos na eficácia e na qualidade dos serviços, como os próprios profissionais e as organizações de classe, reiteradamente, vêm reconhecendo.
E, todavia, o acesso aos serviços de Saúde e a sua capacidade de resposta constitui uma das áreas que registou um avanço decisivo com o 25 de abril.
Tal facto não mitiga o atual ambiente de descontentamento que, diariamente, se observa. A insatisfação crescente resultará, também, de uma maior exigência e consciência por parte dos cidadãos face ao Estado; fruto, em grande parte, dos benefícios das políticas públicas de saúde implementadas na sequência do 25 de abril. Que, logo a partir de 1975, tornou a Saúde mais acessível a todos, levando os cuidados aonde nunca tinham ido, através do Serviço Médico à Periferia, de que detalhadamente falamos no capítulo “Médicos do povo”. E, como um dos clínicos entrevistados refere, as pessoas passaram a perceber que o acesso à saúde era um direito, não um privilégio, como era anteriormente, ditado pela condição económica de cada um.
Este processo de políticas públicas prosseguiria até culminar, em setembro de 1979, com a aprovação, na Assembleia da República, do Serviço Nacional de Saúde. Os votos contra do CDS e PPD foram insuficientes para impedir, face à então maioria de esquerda parlamentar (PS, PCP e UDP), uma lei que mudaria definitivamente, e para melhor, o acesso aos cuidados de saúde de todos os portugueses. Independentemente dos respetivos recursos económicos.
À semelhança do que antes havia sucedido com a introdução dos novos direitos laborais, como o subsídio de desemprego, ordenado mínimo e 13.º mês, mais uma lei de inspiração socialista mudaria, com inequívocos resultados positivos, a vida de milhares de portugueses, sobretudo os de menores recursos.
Arquivo António Arnaut
Arquivo António Arnaut
Desde então, ficou conhecida como Lei Arnaut, por ter sido ele - António Arnaut, advogado e deputado do PS por Coimbra - a elaborar, enquanto ministro dos Assuntos Sociais do II Governo Constitucional, o despacho publicado a 29 julho de 1978, que permitia a todos os portugueses o acesso gratuito aos serviços médico-sociais e aos hospitais, assim como à comparticipação nos medicamentos. E ainda porque, por coincidência, no dia da votação plenária, foi António Arnaut, na qualidade de presidente substituto (Teófilo Carvalho dos Santos esteve ausente nessa sessão), que assinou o diploma. Finalmente, mas não menos importante, porque foi sempre um dos mais acérrimos defensores e combatentes de um serviço público de saúde universal.
O caminho andado nesse campo foi tão grande que - no país em que o atual primeiro ministro, Luís Montenegro, pede estofo e mentalidade à Cristiano Ronaldo -, é na mortalidade infantil (a maior vitória na área da saúde), que se registam os melhores e mais significativos resultados. À campeão, mesmo!
Portugal era, em 1974, o país da Europa Ocidental onde morriam mais crianças com menos de um ano de idade: 38 por cada mil nascimentos. Hoje, está entre os campeões mundiais com a menor taxa de mortalidade infantil. Tudo isso se deve ao entrosamento de um conjunto de fatores: melhor acesso aos cuidados de saúde, melhor alimentação e melhores condições na habitação. Em síntese: melhor nível e qualidade de vida.
Campanhas de alfabetização
Foi na condição de sacerdote que Abílio Louro de Carvalho, juntamente com o conservador cónego Ilídio, palmilhou aldeias dos concelhos de Lamego, Castro Daire e de Vila Nova de Paiva, em ações informais do que hoje chamaríamos aulas de Cidadania. Ele, que até tinha tido no seminário um professor que, “bem antes do 25 de abril, já dizia que as colónias tinham de ser independentes, da mesma maneira que uma pessoa chegada à idade adulta se torna também independente dos pais”.
Haver um padre no seminário de Lamego, em plena ditadura, a ter afirmações daquelas, é obra. Mas, entretanto, o país já respirava liberdade e eram esses ventos novos, apesar das mudanças súbitas de ar, que Louro de Carvalho levava às populações das aldeias. Estas foram, de resto, o destino da atenção de múltiplas ações de alfabetização e de politização das populações, cujo processo fora iniciado e incentivado pela 5.ª Divisão do Estado Maior General das Forças Armadas.
A materialização de todo esse programa de esclarecimento no terreno implicava a participação e a colaboração de associações culturais e organismos vários, com implantação nos respetivos territórios. É neste contexto que dois jovens universitários - Teresa Oliveira, futura engenheira civil, e António Rodrigues, futuro médico -, vão entusiasticamente participar nas campanhas de alfabetização.
Pitões das Júnias, em Trás-os-Montes, Malpica do Tejo, freguesia do concelho de Castelo Branco e Unhais da Serra são os destinos onde, em 1975 e em 1976, passam boa parte das férias de verão a ensinar os rudimentos da escrita. “As pessoas queriam aprender a fazer o nome”, recorda Teresa Oliveira, “e era nisso que nos focávamos”.
António Rodrigues, que jamais esquece os serões à noite, na casa comunitária de Pitões, salienta o “recurso ao método de Paulo Freire, como estratégia pedagógica”. Traduzindo, trata-se de um processo de alfabetização de adultos centrado nas palavras que constituem o quotidiano das pessoas. Assim, “em vez de se ensinar letra a letra, nós optávamos por palavras, como “enxada, boi, etc.”, exemplifica o médico, agora reformado.
Tudo isto, independentemente das interpretações, do maior ou do menor empenhamento e da disponibilidade para a ação cívica. Tudo isto era reflexo do atraso social, cultural e económico que o país tinha nos alvores da democracia.
Escola na aldeia de Caria, concelho de Belmonte
Escola na aldeia de Caria, concelho de Belmonte
Centro da aldeia de Marialva, município de Mêda
Centro da aldeia de Marialva, município de Mêda
De então para cá, com ziguezagues, com altos e baixos, a cair e a levantar-se, como se aprendesse a andar de bicicleta, Portugal foi fazendo um caminho. E os dados não mentem nem deixam margem para dúvidas. O país mudou muito e para melhor, a despeito da propaganda da extrema-direita, que clama por “três Salazares” e insiste em afirmar que nada foi feito nos últimos 50 anos.
Os números contrastantes entre o passado ditatorial e o presente democrático desmentem a desinformação e apontam para o que, reiteradamente, defende o filósofo político espanhol Daniel Innerarity: só mais democracia pode resolver os problemas e insuficiências da própria democracia.
Luís Garra e os benefícios que o 25 de abril trouxe
Donde, só por má-fé, despeito ou incompreensível desconhecimento se pode, hoje, clamar que antigamente é que era bom e que o último meio século foi tempo perdido.
Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinho no Douro, ainda recentemente - 24 de janeiro de 2026 – escrevia, no seu habitual espaço semanal no Público (suplemento “Fugas”), não ter saudades da vida da sua juventude: “Comer da horta e da loja do porco e do galinheiro, e para quem podia, não era uma filosofia ou opção gastronómica, era uma necessidade imposta pela pobreza e pelo isolamento, a única alternativa que restava ao miserável país do Deus, Pátria e Família, da mulher dos lavores caseiros e do homem da tasca.”
É justamente sobre o alcoolismo e a submissão da mulher que o casal Manuel e Ermelinda Ferreira, ele de 80 anos e ela com 71, residentes na Covilhã, nos fala, sem a mínima saudade desse tempo. Passaram igualmente por privações, lembram-se dos “brinquedos que eram feitos com as latas de conserva e os carrinhos de arame”, porque o dinheiro era escasso. Recordam as vidas de privações, em especial de liberdade, e de grande escassez: “As pessoas iam ao tanque comunitário lavar a roupa, porque não havia água canalizada nem casa de banho”, sublinha Ermelinda. Especifica ainda, a este respeito, o uso da ribeira em frente à fábrica Pereira Nina, “aonde as lavadeiras lavavam a roupa”.
Manuel e Ermelinda Ferreira
Manuel e Ermelinda Ferreira
Sentado ao seu lado, no sofá da sala onde nos recebem, Manuel diz que sim com a cabeça e aproveita para falar da caridade de “alguns industriais que, pelo Natal, davam um cobertor a cada operário”.
Tinha 14 anos quando começou a trabalhar numa empresa de canalizações. Tirava “uma boa féria” - expressão da época, como sinónimo de ordenado -, como nos conta, sem esconder que esses 20 escudos por semana (10 cêntimos atualmente) eram bem suados: “Tinha de levar os tubos das canalizações às costas até lá acima, à fábrica Ernesto Cruz!...Já viu?”
Evidentemente que nem todas as pessoas têm, da ditadura, as mesmas marcas no corpo e na memória. Porém, alguns, como Luís Garra, não esquecem a data do primeiro dia na fábrica: 28 de setembro de 1968. Tinha 11 anos, idade para brincar, não para jornadas de oito horas diárias e seis quilómetros a pé, para lá e para cá, à chuva ou ao sol, sem alternativa, porque em família pobre, sobreviver era preciso. E porque ele mesmo repetidamente nos afirmou, “filho de operário, operário tinha de ser”.
Foram esses cidadãos, que traziam as marcas de vida mais dura, de ordenados pouco dignos que, conquistada a liberdade, se apressaram a reivindicar melhores salários. Na Covilhã, os operários têxteis chegaram a fazer uma greve, em maio de 1974, que durou quase um mês, para conseguirem chegar aos mil escudos mensais: cinco euros na atual moeda.
Cinco décadas depois, há aspetos em que a História parece repetir-se. Os direitos laborais voltam a estar na frente de todas as batalhas sindicais e na ordem do dia das tomadas de posição partidárias. A diferença está na força, hoje mais frágil, dos trabalhadores e das suas representações de classe.
Há 50 anos, recorda Lemos Santos, administrador, à época, da principal empresa têxtil de Manteigas (Sociedade Têxtil dos Amieiros Verdes, SA), “os problemas que houve nem sequer tinham que ver com o salário; o problema era o horário, porque todo o operário tinha a sua pequena atividade agrícola”.
Da mesma administração fazia parte José Rabaça, conhecido socialista e antigo apoiante de Humberto Delgado. Mas à semelhança do que se atualmente se passa – 30 de março, data em que este texto está a ser escrito – as questões laborais são muito mais complexas e transversais que o espetro partidário.
O país que emergiu com a democracia, que se fortaleceu e desenvolveu com e na liberdade de todas as expressões e de reunião, enfrenta hoje novas desigualdades, novos desafios, inclusivamente, tentativas de branqueamento da história.
Longe de aspirar ser uma cartografia da ditadura e de todas as mudanças proporcionadas pelo 25 de abril, esta “Peregrinação interior” dividida em cinco estações, procura ser, à sua dimensão, um exercício de resistência contra a desmemória. Foi com esse objetivo que nos fizemos ao caminho. Para recuperar uma parte da memória de um tempo sombrio, sofrido e difícil, a partir das vozes de quem o viveu e habitou, para que esses sinais não se apaguem e resistam às pueris tentativas de reescrita histórica.
E para que desse tempo se possa ter uma justa dimensão, nada como o contrastar com algumas das experiências, iniciativas e até medidas políticas que, fruto do 25 de abril, mudaram, para melhor, a vida das pessoas - mais ainda, dos seus filhos e netos. Todos, compreensivelmente, recusando o regresso ao passado.
©Alfredo Cunha, SPA, Lisboa 2026Fundação Mário Soares e Maria Barroso
©Alfredo Cunha, SPA, Lisboa 2026Fundação Mário Soares e Maria Barroso
Mário George Cabral (feat Mia Tomé), interpretam Cântico do País Emerso, cujo fragmento aqui reproduzido, com a sua autorização, muito agradecemos.










