Adultos precoces, subalimentados e rotos. Muitos milhares de crianças e jovens adolescentes cresceram sem nada, a não ser a pobreza extrema e o duro trabalho no campo ou na fábrica. Ir à escola não era para todos. Acabar a quarta classe era um luxo, para quem vivia em casas sem água, sem esgotos, sem eletricidade. Uma miséria.

Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril

Este trabalho teve o apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 abril

Era o campo ou a fábrica. Fazer a quarta classe era um sonho, porque muitos não conseguiam sequer ir à escola - em abril de 1974, mais de 25% da população portuguesa era analfabeta. 

José Simões sobre o destino das jovens na Covilhã

José Simões sobre o destino das jovens na Covilhã

Os mais pobres, que eram a maioria, “esperávamos que a roupa secasse para a vestir, porque não havia outra”, conta Joaquim Galado, de 67 anos, nascido e residente em Serpa, que aos 14 anos trabalhava como um adulto a varejar as oliveiras ou na monda, e a cujos campos levava, até lá chegar, “mais de uma hora a pé, com os pais.”

Umas centenas de quilómetros ao norte, Mário Teixeira, eletricista e mecânico, nascido há 72 anos, na Lixa, concelho de Felgueiras, fala também das crianças que “iam descalças para a escola”, das pessoas que “vinham à feira da terça-feira com o calçado ao ombro, e que só à entrada da vila se calçavam”; e que “as privações e dificuldades eram tantas” que, se hoje as contasse às filhas, “elas não acreditavam”.

O caso de Maria Manuela Mesquita, 79 anos e também natural e residente na Lixa, é um pouco diferente no percurso, mas semelhante nos sacrifícios. Aos nove anos já ajudava a mãe, para esta “poder fazer as feiras” e aos 12, com a quarta classe feita, foi “trabalhar para uma empresa de bordados, para assim permitir que o irmão mais novo pudesse estudar”. 

Maria Manuela Mesquita

Maria Manuela Mesquita

Numa outra geografia vamos encontrar José Simões, a quem jamais daríamos os 85 anos que garante ter, face à boa forma física que apresenta. Ao primeiro cumprimento, observamos com prazer que é um conversador nato, dá respostas a perguntas que ainda nem sequer foram formuladas, adivinha a curiosidade que ali nos levou e faz-nos, de imediato, uma visita guiada ao Rancho Folclórico e Etnográfico do Refúgio, que fundou em 1966 e ainda dirige. Não elogiávamos a sua forma física?...

Estamos numa freguesia da Covilhã, onde José Simões vive desde a infância. Revela-nos que o que vemos, sobretudo as belas moradias com dedo de arquiteto moderno, nada têm a ver com o passado. “Aqui cresci rodeado de pobreza”, afirma, agora orgulhoso e feliz das transformações, para muito melhor, que aquele seu mundo foi tendo nas últimas décadas.

(...) “A minha mãe tingiu o vestido de noiva, para o poder aproveitar e vestir mais vezes.”

Maria Velez

Filho de agricultores e pai analfabeto, teve, “desde muito novo, de ir trabalhar no campo”, porque cedo ficou órfão. Recorda a vida difícil no Refúgio, então zona periférica pobre, onde a maioria dos residentes “não tinha casa de banho: as pessoas usavam os bacios e, depois, água alta”, que significa que os despejos tanto iam para a via pública como para a ribeira que ali passa.

José Simões na casa-museu do Rancho Folclórico e Etnográfico do Refúgio

José Simões na casa-museu do Rancho Folclórico e Etnográfico do Refúgio

Com 11 anos e a quarta classe no bolso consegue um emprego na mercearia Soares Cruto, na rua dos Combatentes da Grande Guerra, no centro da cidade, onde vai ganhar 20 escudos por semana - 10 cêntimos na moeda atual. Um luxo na moeda antiga e uma jornada de trabalho, seis dias inteiros por semana, ainda longe da gramática de qualquer direito laboral. De resto, trabalho era coisa que acumulava com facilidade e por necessidade, em especial “no tempo das sementeiras, em que às seis horas da manhã já estava no campo a ajudar o pai, antes de ir para a mercearia”. 

Dali à Soares Cruto, onde o esperava o velho balcão de madeira escura, eram quatro quilómetros bem medidos, distância que naquela idade juvenil cumpria quase sempre em passo de corrida. Para lá e para cá, embora fosse mais dura a ida porque é a subir.

Muita penitência, débil alimentação

A vida era, então, uma espécie de penitência diária, um rosário de intensos sacrifícios para garantir uma sobrevivência mínima: “A minha mãe tingiu o vestido de noiva, para o poder aproveitar e vestir mais vezes”, diz Maria Velez, que aos 11 anos começou a trabalhar na costura e nunca mais a largou até se reformar. Hoje, com 72 anos, recebe-nos na sua casa de Arronches, no Alto Alentejo, para num regresso ao passado nos dizer que “a irmã mais velha nunca aprendeu a ler” e que boa parte das pessoas ali da vila “dormiam em colchões com barbas de milho”. 

Mas ainda havia pior: “Os mais pobres nem isso tinham: deitavam-se nuns enxergões”, acrescenta Maria Velez, feliz e orgulhosa da filha, que sorria perante estas memórias, cujo destino e sorte foi muito diferente “porque a geração nascida a partir de 1978 já conseguiu prosseguir nos estudos e foi, até, a primeira a obter uma licenciatura”. É o caso da sua filha, que atualmente é professora universitária.  

César Galão, nascido em 1984, com quem tínhamos conversado antes, e que, ao invés da filha de Maria Velez não possui qualquer licenciatura, não hesitou igualmente nos elogios aos ventos trazidos pela democracia. Desfruta, aliás, da liberdade editorial hoje existente para dirigir a revista bimestral fundada em outubro de 2025, intitulada “A Forte Arronches”.

Voltando atrás no tempo: na altura em que Maria Velez dava ao pedal da máquina de costura, uma outra jovem, a centenas de quilómetros, tinha de dar à perna para cumprir uma das suas tarefas diárias: “Levava muitas vezes a comida ao meu pai, que trabalhava numa quinta junto a Viseu. Ia a pé, muitas vezes descalça. Demorava mais de uma hora a chegar lá. Depois era outro tanto para regressar”, conta Celeste Pereira, com quem haveremos de voltar a falar mais adiante e a quem a sua condição social obrigou a abandonar a escola depois de terminada a segunda classe.

E a alimentação?... Em regra, era escassa e pobre em calorias, assegura o sindicalista Diogo Serra, atual coordenador do Centro Interpretativo José Luís Peixoto, em Galveias, especificando que, em muitas situações, a opção “era comer 60 açordas ao mês”. Por várias vezes, ao longo desta peregrinação pelo interior do país, ouvimos relatos semelhantes, memórias doridas do tempo em que “a fome era muita”. E, por isso, “tínhamos de dividir um quarto de linguiça e um caldo de grão”, pormenoriza Joaquim Galado.

Maria Velez

Maria Velez

Celeste Pereira

Celeste Pereira

Diogo Serra

Diogo Serra

Joaquim Galado

Joaquim Galado

Arquivo da Junta de Freguesia de Santiago do Escoural

Arquivo da Junta de Freguesia de Santiago do Escoural

Só por má-fé, inconfessável interesse ou ignorância é possível ter saudades desses tempos, quando se sabe que, “atualmente, as pessoas ganham mais e vivem melhor”, afirma de forma categórica José Queijo, apontando para os exemplos do filho e do neto, que já tiveram oportunidades de vida que ele nunca teve. 

Ivo Queijo, estudante de Doutoramento na Universidade de Lancaster

Ivo Queijo, estudante de Doutoramento na Universidade de Lancaster

Um pão por semana

Por ser uns anos mais velho e, por esse motivo, ter conhecido mais cedo a miséria, José Queijo (que pediu para não ser fotografado), de 87 anos, conta-nos ao redor da lareira numa tarde fria de janeiro, em Seixo de Manhoses, concelho de Vila Flor, distrito de Bragança, onde vive e fez a sua casinha num tempo em que tinha de ir buscar água em cântaros ao fontanário da aldeia que sabe, por experiência própria, o que é ter fome. “Quando comecei a trabalhar”, recorda, “um pão dava para toda a semana”.

Eram 12 irmãos lá em casa e alguns, como sucedeu com ele, não conseguiram ir à escola. Diz que aprendeu a rabiscar o nome e por aí se ficou. Pudera: aos nove anos, como nos conta, começou “a trabalhar nas vinhas; dormíamos num lagar de azeite, no chão, enrolados a uma manta”. E aponta para a mulher, sentada ao seu lado, como que a pretender coletivizar o sentido e o sentimento de dificuldade e de miséria que lhes coube enfrentar. 

“Ainda nem sequer podia com a cesta à cabeça, quando comecei a trabalhar”, relembra Odete Queijo, um ano mais nova que o marido, mas com o mesmo historial de fome: “Uma tigela de caldo três vezes ao dia e um pão de centeio que tinha de dar para toda a semana. Era assim!”, acrescenta, deixando-nos a pensar acerca da capacidade de sobrevivência que aquela gente, tanta gente, teve de possuir durante tanto tempo. 

Estávamos ainda a morder o silêncio, que as palavras minguavam, quando José Queijo se faz de novo ouvir: “Sabe com que idade tive o primeiro sapato, e era de pneu?... Aos 12 anos, porque, até essa altura, andava descalço.”

Na mesma roda à volta da fogueira, o filho, que terminou o 12º ano à noite, e o neto a fazer um doutoramento numa universidade no Reino Unido, escutam também, num silêncio religioso, as memórias do pai e avô, que um dia, cansado da sua condição, pediu quatro contos emprestados para pagar a quem o levasse, a salto, para França. Por lá esteve alguns anos.

Hoje, é proprietário de um terreno, tem vinhas e oliveiras. E já possui água canalizada e luz elétrica em casa, mas não esquece nem mitiga as marcas que o corpo e a lembrança lhe trazem desses anos tristes e sombrios em que foi obrigado “a fugir da miséria”.

Era um tempo muito idêntico ao que Steinbeck descreve em “As Vinhas da Ira”, quando, a certa altura, nos dá um murro no estômago - e ainda há quem diga que as palavras não doem: “Não imaginas o som que a fome tem quando chora.”

Só por má-fé, inconfessável interesse ou ignorância é possível ter saudades desses tempos, quando se sabe que, “atualmente, as pessoas ganham mais e vivem melhor”, afirma de forma categórica José Queijo, apontando para os exemplos do filho e do neto, que já tiveram oportunidades de vida que ele nunca teve.

Pobres operários têxteis

A tentativa de fuga à miséria é intrínseca à história humana. As grandes correntes migratórias dos séculos XIX e XX bem o demonstram, em cujos fluxos populacionais os pobres de Portugal ocupam lugar de destaque: só entre 1960 e 1973, cerca de um milhão e 400 mil portugueses emigraram, em busca de melhores condições de vida, numa fuga desenfreada à miséria.

Mas também havia fluxos internos, como os casos dos “ratinhos”, sobre os quais escreve Aquilino Ribeiro. Ou apenas de cariz individual como a que Augusto de Castro nos traz, em “A Lã e a Neve”. Nesta obra, o autor fala-nos de Horácio, um jovem pastor de Manteigas que, regressado da tropa e pretendendo dar a Idalina, noiva e futura mulher, um destino que o pastoreio na sua vila não oferecia, decide aventurar-se a atravessar a serra da Estrela para ir em busca do sonho industrial na tecelagem da Covilhã.

Essa aventura muito bem ficcionada estava em consonância com a realidade. Reparem: aos nove anos, Luís Garra vai com a família, que troca Manteigas pela Covilhã, em busca de melhor sorte. A maior capacidade reivindicativa e superior organização operária faziam com que o trabalho nas fábricas fosse ali um pouco mais bem pago. Nessa altura, Luís Garra, que muitos anos depois vai ser um destacado dirigente sindical, não sabia ainda que a “Covilhã era uma cidade sob vigilância permanente da PIDE”, como nos contam António Assunção e Casimiro Santos, autores da obra “Lutaram por Abril – A Resistência no Concelho da Covilhã 1926-1974”, resultado de uma intensa e meticulosa pesquisa que os fez descobrir “510 nomes de operários presos pela polícia política ao longo daqueles anos”.

Entrada da antiga fábrica Nova Penteação

Entrada da antiga fábrica Nova Penteação

Luís Garra também não sabia ainda, embora o pai, já operário, devesse estar avisado, que apesar do pagamento da jornada de trabalho ser ali um pouco mais atrativa do que em Manteigas, “não havia assistência médica aos trabalhadores têxteis, na Covilhã, e as condições higiénicas das casas cujos salários lhes permitiam suportar eram muito más, situação que se agravava quando as famílias eram numerosas, o que à época era uma situação normal”, acrescentam os mesmos historiadores.

Dois anos depois, aos 11, Luís Garra já enchia canelas para os teares, oito horas diárias, de segunda a sexta, e sábados até à hora de almoço: “Filho de operário, operário há-de ser. Fui um dos melhores alunos da escola; porém, um colega meu, também bom aluno, foi para o liceu. Eu fui para a fábrica”, conta-nos, explicando que fazia diariamente os cinco ou seis quilómetros sempre a pé, de casa, na Borralheira, onde não havia esgotos nem água canalizada e o alcatrão era uma miragem, até à Sá Pessoa & Irmãos, situada na estrada das poldras, na Nossa Senhora da Conceição. No fim da jornada de trabalho, nova caminhada, à chuva ou ao sol.

Nessa altura, não tinha ainda qualquer consciência política ou, sequer, uma noção clara acerca de injustiças sociais. Não deixava, todavia, de pensar na razão de ser de tanta pobreza à volta, quando observava os mais velhos “a poupar no conduto do almoço, que tinha de dar para dois dias de refeição”. 

Luís Garra

Luís Garra

Aos 15 anos, quando foi para a Belcor, em Felgueiras, acumulava com o part-time de pastor, “porque era preciso levar as cabras até ao mato do Seixoso”. Foi por essa altura, afirma, que teve “as primeiras botas”. Para a escola, “ia descalço e no dia da Primeira Comunhão usei o calçado do meu irmão.”

Albino Dias

Meia dúzia de quilómetros a sul, no Tortosendo, outrora conhecida pela “aldeia vermelha”, António Calado, 86 anos bem marcados no rosto, teve um destino muito semelhante, assim que se viu com a quarta classe feita. Nascido também no seio de uma família pobre, as suas ambições pouco poderiam ir além dos muros e dos teares de umas das muitas fábricas que então laboravam na freguesia. Foi na fábrica Américo Sousa, como poderia esquecer?, que teve o seu batismo de operário e onde chegou a ganhar 300 escudos por semana - cerca de um euro e meio, na moeda atual. 

António Calado

António Calado

Cresceu “a comer sopa de feijão cozido com ovo todos os dias, porque carne era coisa que não havia lá em casa para ninguém”, relembra. E como a maioria dos da sua condição, também na sua casa “não havia água canalizada, nem fogão ou eletricidade”, pormenoriza.  Situação que, não muito longe dali, em Manteigas, também era usual como refere Fernanda Isento, antiga operária fabril. 

Sobreviver é preciso

Albino Dias, de 78 anos, eletricista e operário têxtil nascido e criado na Lixa e tropa feita na Guiné, conseguiu fazer a 4ª classe, mas, como eram 10 irmãos, aos 11 já trabalhava como sapateiro: “Todos os dias, incluindo os domingos, dedicados a endireitar as tachas metálicas que eram aplicadas no calçado e a arrumar a oficina.”

Albino Dias

Albino Dias

Aos 15 anos, quando foi para a Belcor, em Felgueiras, acumulava com o part-time de pastor, “porque era preciso levar as cabras até ao mato do Seixoso”. Foi por essa altura, afirma, que teve “as primeiras botas”. Para a escola “ia descalço e no dia da Primeira Comunhão usei o calçado do meu irmão”.  

Mais a sul, na aldeia de Cabreiros, concelho de Arouca, Custódia Oliveira, de 71 anos, foi a única jovem do seu tempo a prosseguir nos estudos após a quarta classe. Filha do dono de uma mercearia local, cujo “livro de fiados não parava nunca de crescer, porque as pessoas não tinham dinheiro”, como nos conta, “só quando foi para o Porto fazer o Magistério, teria 17 ou 18 anos, é que vi um comboio pela primeira vez”.

Custódia Oliveira

Custódia Oliveira

Acrescenta em voz baixa, como se partilhasse um segredo, que “a mãe dava muitas vezes a várias crianças uma tigela de leite e sopa”, porque havia fome e, frequentemente, “era ver miúdos a pedir pão, de porta em porta”. Mas também havia os colegas da aldeia de Cando, segundo revela, que frequentavam a escola nos Cabreiros, o que os “obrigava a fazer quatro quilómetros a pé, para cada lado, fizesse chuva ou sol.” Recorda que estes “traziam um farnel, que era uma bocado de broa e às vezes um pedaço de peixe ou bacalhau frito, enrolado num pano”.

Eram “tempos muito difíceis, em que até o acesso à aldeia não é como agora: era um carreiro de terra batida, com lama no inverno, tornando impossível a aproximação de qualquer carro. Embora, verdade seja dita, o único carro da aldeia era o do pároco João”, afirma Custódia Oliveira, sem evitar um sorriso matreiro.

Amélia Dinis, nascida em Amarante há 74 anos, onde fez o curso de formação feminina na Escola Industrial local, mas a viver na Lixa há 48, recorda-se de “dar meio pão, todos os dias, a uma colega, pois era normal muitas chegarem de manhã à escola com fome”. Lembra, ainda, que o marido e os irmãos “iam descalços para escola, na aldeia de Lufrei”, no concelho de Amarante, onde então residiam.

Amélia Dinis

Amélia Dinis

António Matias, com quem mais adiante voltaremos a falar, ainda hoje se lhe aperta a garganta de cada vez que recorda: “Nunca aprendi a brincar.” É um facto: a pobreza e a falta de horizontes batia a quase todas as portas do país. 

Que o diga Mário Teixeira, 72 anos, mecânico reformado e uma vida inteira passada entre Felgueiras e a Lixa. A voz é grave e pausada, como que a medir as palavras ou, porventura, a evitar as que mais podem magoar-lhe na memória: “Só aos 11 ou 12 anos soube o que era um gelado ou um bolo”. Quando logo a seguir nos diz que a habitação onde vivia com os pais “não tinha casa de banho, nem água canalizada, nem esgotos”, percebe-se melhor a razão da experiência tardia na prova do gelado.

E, todavia, faz questão em sublinhar, a sua casa, para os padrões da época, nem era das piores: “Até vivíamos relativamente bem”, afirma em tom otimista, explicando que “muitas das casas, não era o caso da nossa, tinham chão em terra, outras guardavam os animais no piso térreo e dormiam numa espécie de sobrado”.

Em Vila Chã, freguesia rural do concelho de Viseu, Celeste Pereira, 62 anos, fez a segunda classe e ponto. Novinha, começou a trabalhar no que pudesse. Lembra-se da casa humilde dos pais onde chovia, pois o telhado, se é que se podia chamar telhado a umas tábuas cobertas com barro, não vedava a água. “Ai, senhor, havia tanta miséria!”, afirma, sublinhando a interjeição com um cruzar de mãos no regaço para, num breve suspiro, acrescentar: “Hoje, felizmente, na minha casinha, embora modesta, não chove.”

Filha de agricultores e neta de um moleiro que não foi à escola, Celeste, à semelhança de muitas outras mulheres, como Maria Teresa Silva ou Conceição Cavaco, no concelho de Aljustrel, tinham no trabalho do campo “o destino dos pais”, como refere Maria Teresa, de 83 anos, e que, aos nove, “ainda na escola, ia para a monda a partir do meio-dia”.

Maria Teresa Silva

Maria Teresa Silva

Conceição Cavaco

Conceição Cavaco

As dificuldades de muitas famílias suportarem os estudos dos filhos eram tão evidentes que, em Bragança, “na casa da dona Arminda e do senhor Machado, como era conhecida a pensão, o alojamento podia ser pago à merenda, ou seja, através de produtos trazidos da aldeia.”

Fernando Calado

Seminário como último recurso

Outros, como Óscar Maia, de 75 anos, nascido em Freixo de Cima, concelho de Amarante, tiveram no seminário a única escapatória para aceder ao ensino. Esse era, aliás, o principal expediente a que as famílias mais carenciadas recorriam, caso quisessem dar estudos a um filho. 

Óscar Maia

Óscar Maia

Isto mesmo é confirmado por Fernando Calado, que fez o liceu no seminário de Bragança. Assegura que, “nas décadas de 1950 e 1960, haveria lá um total de 200 alunos, dos quais apenas meia-dúzia chegou a padre”. Essa mesma estatística se verificou no seminário de Lamego, onde Abílio Louro de Carvalho, oriundo de uma família de agricultores pobres da aldeia de Pendilhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, fez os estudos. “Dos 82 alunos apenas cinco acabaram a respetiva formação e destes só quatro foram ordenados sacerdotes”, afirma.

Fernando Calado

Fernando Calado

Não fora o seminário, o de Resende nos primeiros quatro anos, antes de prosseguir para Lamego, e o seu destino teria sido o de ir para o campo tratar do milho e do centeio, como o pai, que apenas aprendeu a escrever o nome quando foi à tropa. Louro de Carvalho confirma que o cenário geral de pobreza “era grande”, mesmo fora das aldeias, “como eram os casos de Tarouca e de Vila Nova de Paiva”, em que “a maneira de trajar das pessoas, as ruas estreitas e a ausência de luz elétrica em muitos locais” eram sintomas evidentes do atraso sócio-económico da região e do país. Salienta ainda que, em muitas localidades, nem sequer as ruas tinham nomes próprios: “Era a rua da latada, a rua da praça, etc.”  

Ao invés de Abílio Louro de Carvalho, que acabaria por se ordenar sacerdote – foi, inclusivamente, capelão militar de Viseu em 1981/82, antes de abandonar o sacerdócio -, o destino final do jovem transmontano Fernando Calado foi a Faculdade de Filosofia, em Braga. Percurso este, que contraria o panorama então dominante, em que, ao lado da “enorme pobreza e analfabetismo”, como sublinha, havia as famílias com um mínimo de posses, cujo objetivo “era dar o antigo quinto ano a um filho, para assim lhe permitir um emprego digno”.

Mesmo nesses casos, segundo nos conta numa das mesas do emblemático Café Chave d´Ouro, no centro de Bragança - cujo primeiro andar do edifício foi sede do Centro Republicano, caraterizado pela sua ação antifascista -, as dificuldades de muitas famílias suportarem os estudos dos filhos eram tão evidentes, que, “na casa da dona Arminda e do senhor Machado, como era conhecida a pensão, o alojamento podia ser pago à merenda, ou seja, através de produtos trazidos da aldeia”.

Aldeia Transmontana

Aldeia Transmontana

A Óscar Maia, de quem já falámos, valeu-lhe o seminário do Espírito Santo, em Fraião e na Régua. Foi o primeiro de 11 irmãos a ir além da escola primária. Aos 10 anos, todos aprenderam a arte de carpinteiro, que a vida era dura e a alimentação escassa: “A nossa mãe punha um cheirinho de bagaço no miolo do pão seco, para dar sabor; depois, era um caldo russo [sopa com farinha] ao almoço e ao domingo tínhamos arroz.” 

Mas essa perceção de dificuldades - palavra tão em voga, atualmente - também a tinham os professores. Leodina Silva, 78 anos, reformada, e que durante quase quatro décadas foi professora primária no distrito de Viseu, não conseguiu disfarçar, nas suas lembranças, o anacronismo do tempo em que se “ensinavam as linhas de caminho de ferro a alunos que nunca tinham visto um comboio”; e ainda, no seu caso, a “autorização que foi obrigada a pedir para poder casar, assim como assinar a declaração em como era anti-comunista”.

Duas ou três horas antes, Ernesto Silva, seu marido, de 76 anos, que foi professor e coordenador do ensino recorrente, reforçara a ideia de que, outrora, “com tanta pobreza, as pessoas, desde tenra idade, tinham de ir trabalhar, fossem rapazes ou raparigas”. “O Estado Novo - salienta - pouco ou nada fez para incentivar o ensino, a ida à escola.”

Estamos em Vila Chã, freguesia de Viseu, onde ainda hoje não há centro de saúde nem médico (e por aqui nos disseram que talvez não se justifique), mas onde, só após abril de 1974, as ruas foram alcatroadas e passou a haver saneamento e água canalizada. Estas foram, aliás, enquanto presidente da junta à época, as suas duas grandes obras. E mesmo a eletricidade chegou tarde. Ernesto Silva, se quis estudar, teve de o fazer, como refere, “à luz do candeeiro de petróleo”, pois só em 1980, com a chegada da luz à povoação de Soutulho, a freguesia inteira ficou eletrificada.

Em Montalegre, José Ribeiro - que cedo se iniciou nos trabalhos da construção civil e que, aos 10 anos, já experimentava a arte de serralheiro -, não teve a sorte e as oportunidades de estudo de Ernesto Silva, apesar de substancialmente mais novo: 64 anos. Ficou-se pela quarta classe, habilitações que, mesmo assim, lhe permitiram tirar a carta de condução. Há 43 anos, é condutor nos bombeiros da sua vila transmontana. 

Fernanda Isento começou, igualmente, aos 10 anos a sua longa carreira profissional. Nascida há 71 anos, em Manteigas, onde sempre viveu, era uma criança ainda quando lhe puseram nas mãos uma remalhadeira, máquina destinada a assegurar os acabamentos das peças. Cumprindo o destino da esmagadora maioria das crianças pobres da vila, é vê-la a ir para a Sotave, fábrica onde permaneceu 45 anos.

Leodina Silva

Leodina Silva

Ernesto Silva

Ernesto Silva

José Ribeiro

José Ribeiro

Fernanda Isento

Fernanda Isento

Propaganda e país real

A propaganda do regime vendia a imagem de um país bucólico e feliz, as revistas faziam capa com o “Avril au Portugal” - música de que se conhecem cerca de 200 versões em todo o mundo -, mas a realidade era feita de muita repressão, pobreza, sobrevivência, ignorância. 

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Imagem: BLX-Hemeroteca Municipal de Lisboa

Imagem: BLX-Hemeroteca Municipal de Lisboa

Poupar em tudo e viver com o mínimo dos mínimos era, para parte substancial da população, um destino quase impossível de fintar. Subalimentadas, a viverem em casas com chão de terra batida, sem água, luz ou esgotos e a dormirem em camas de palha de milho, as crianças tornavam-se adultos precoces, sem experimentarem a alegria de uma infância brincalhona. 

Andar descalço não era uma opção, era uma sujeição. Única forma de ir e vir, por vezes com as alpercatas ao ombro. Outras vezes, com uns sapatos quase sempre rotos, seguramente gastos. Daí a necessidade de os poupar andando com eles fora dos pés até onde fosse possível.

O Decreto-Lei nº 12073, de 9 de agosto de 1926, já proibia a circulação de pessoas descalças nas áreas citadinas. Uma coisa, porém, era a realidade legislativa repressiva, que impunha, inclusive, multas a quem andasse descalço, outra o país real. Neste, os homens e crianças andavam frequentemente com o calçado pelos ombros, como era o caso de António Matias, hoje com 71 anos, que fez a quarta classe na aldeia de Simões, concelho de Soure, e que apenas “calçava os sapatos à porta da escola”. Muitas vezes, como nos conta Joaquim Galado, de 67 anos, à mesa do café da Sociedade Filarmónica de Serpa, o sapato era só a fingir, “porque como sucedia com as calças, também os sapatos estavam rotos na sola”.

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Alunos e alunas da escola primária de Arronches, no ano de 1963, em que algumas crianças, como é visível numa delas na fila da frente, andavam descalças. Imagem: coleção particular de Francisco Velez.

Alunos e alunas da escola primária de Arronches, no ano de 1963, em que algumas crianças, como é visível numa delas na fila da frente, andavam descalças. Imagem: coleção particular de Francisco Velez.

O pé descalço era, pois, um problema social que, apesar dos esforços para o maquilhar era impossível iludi-lo. Só assim se explica a preocupação da Liga Portuguesa de Profilaxia Social que, em 1956, edita o livro “O Pé Descalço - Uma Vergonha Nacional que Urge Extinguir. 

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Livro "O Pé Descalço", lançado pela Liga Portuguesa da Profilaxia Social

Livro "O Pé Descalço", lançado pela Liga Portuguesa da Profilaxia Social

Imagem cedida pelo Arquivo Distrital do Porto

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Imagem cedida pelo Arquivo Distrital do Porto

Imagem cedida pelo Arquivo Distrital do Porto

Pelo meio, são também editados cartazes alertando para os riscos de acidente e perigos para a saúde pública, como se o problema pudesse ser artificialmente solucionado através de simples campanhas gráficas. Mais interessado em punir do que em olhar para a questão de fundo, que permanecia inalterada por evidentes razões de ordem sócio-económica, o governador civil do Porto, Elísio de Oliveira Pimenta, através do Regulamento nº 88, de 1958, agrava o âmbito da proibição de andar descalço às vilas e estâncias termais, assim como aumenta o montante das multas até ao máximo de 30 escudos — e a reincidência passa a poder ser punida com pena de prisão entre os oito e os 15 dias.

Arquivo pessoal Orlando César

Arquivo pessoal Orlando César

Meninos que nunca foram crianças

Aquilino Ribeiro, em “Quando os Lobos Uivam (1958) chegou a cunhar Portugal de o “país de pé-descalço”, o que motivou a apreensão do livro pela PIDE e a um processo-crime contra o escritor, por alegadamente estar a denegrir a imagem internacional do país. 

A obra retrata a expropriação violenta dos terrenos baldios por decisão administrativa da ditadura que impôs a plantação do pinheiro, desferindo, com isso, um golpe muito forte nas economias de muitas freguesias do interior, como sucedeu, por exemplo, em Loriga, no concelho de Seia, onde a população se dividia entre o emprego na fábrica e o uso da terra, como nos conta Luís Fernandes, que durante 18 anos esteve ligado à junta de freguesia local. 

“A ocupação dos baldios”, salienta o engenheiro florestal Vasco Paiva, teve um impacto enorme, “ao ponto de destruir a economia de montanha, uma vez que até era proibido levar os animais para esses terrenos, assim como estava interdita a recolha de lenha para o fogão”.

O processo contra Aquilino Ribeiro, com as transcrições da acusação e da defesa, deu origem a um outro livro, “Quando os Lobos Julgam, Uiva a Justiça”, cujo prefácio, a partir do exílio no Brasil, Adolfo Casais-Monteiro, haveria de assinar. Com este subtil gesto de se atribuir o prefácio  da obra a um outro escritor também perseguido pela ditadura, reforçava-se a imagem de um regime censório e autoritário que, no caso, desejava esconder a miséria visível nos pés descalços de grandes franjas da população. 

Mário Rui Cunha, que no seu blogue, Pampilhosa, pára, escuta e olha ( https://lazareto.blogs.sapo.pt/2025/09/) vem mantendo desde há alguns anos um interessante espaço sobre a História e a Geografia Humana da zona da Pampilhosa, outrora um centro de passagem e de confluência de trabalhadores, cuja força braçal era ali angariada para depois seguir para os campos do Ribatejo, da Gândara e até do Alentejo (os “ratinhos”, como Aquilino lhes chamou), conta que, à semelhança de outras zonas do país, também ali a infância foi sacrificada à necessidade da sobrevivência: “A memória ainda guarda os “meninos do barro” — crianças obrigadas a trocar os brinquedos pela canastra e pelas mãos calejadas. Nos barreiros das três grandes cerâmicas da vila, misturavam-se com um exército de homens e mulheres que, pela sobrevivência, carregavam barro e fardos de vida em condições hoje impensáveis.” Conta-se, até, escreve ainda Mário Rui Cunha, que nas manhãs gélidas de inverno “quando as poças amanheciam cobertas por gelo, aquelas crianças descalças urinavam sobre os próprios pés para sentirem que ainda lhes pertenciam. Um gesto quase invisível, mas que traduz a brutalidade de uma infância roubada.”

Não é disso, afinal, embora situando a ação mais a sul, nos telhais de Alhandra, que Soeiro Pereira Gomes nos fala, em “Esteiros”, quando mostra Gineto e Gaitinhas como representantes das crianças forçadas ao trabalho infantil, em consequência das miseráveis condições de vida que aquelas famílias suportavam? Eram os “filhos dos homens que nunca foram meninos”, como então escreveu, assim sintetizando a ideia dura e crua de gerações de jovens que prematuramente se tornaram adultos. 

É disso que nos fala, com voz pausada e bem colocada, António Matias, na pastelaria Nicola, no centro de Pombal, para onde ele marcou o encontro: “Tinha nove anos quando fui, pela primeira vez, para a apanha do figo, no Ribatejo, a 10 escudos ao dia.” 

Em breve, porém, na companhia da mãe e do padrasto, haveria de se iniciar nos campos de arroz na zona de Benavente, no Ribatejo: “Eu era o mais novo de todo o grupo; mas, no ano seguinte, o mais novo já era o meu irmão.” Destino de família ou de classe?

Saudades de quê?

O país do pé descalço e do trabalho infantil era o mesmo. Nada os distinguia. Romana Boieiro, 83 anos, residente em Baleizão, no Baixo Alentejo, nunca aprendeu a ler nem a escrever. A sua escola, ainda não tinha 10 anos, foi a ceifa nos campos, de sol a sol, e a apanha da azeitona. As refeições eram “um caldinho ou uma açorda” e à noite, explica com gestos largos de quem quer delimitar o espaço na pequena divisão da casa onde nos recebe, “a minha mãe punha alho à volta da palha em que nos deitávamos, para afugentar os insetos e os bichos”.

Romana Boieiro sobre o caminho que percorria até à ceifa

Romana Boieiro sobre o caminho que percorria até à ceifa

A três ruas dali, Maria Catarino, 81 anos, também viúva, tinha 13 anos quando se iniciou na apanha do grão, entre a meia-noite e o nascer do sol. Ao contrário da vizinha, conseguiu ir à escola e fazer a quarta classe. Mas a vida sacrificada das duas, assim como as respetivas reformas e pensões de viuvez (cerca de 500 euros) não são muito diferentes, excetuando o período em que Maria, em 1960, esteve “emigrada” em Almada, onde “chegava a fazer seis dúzias de soutiens ao dia que me davam 70 escudos”. Sete vezes mais que os magros 10 escudos diários que, até aos 16 anos, recebia pela sua longa e dura jornada noturna no campo. 

Maria Catarino sobre o seu horário de trabalho noturno

Maria Catarino sobre o seu horário de trabalho noturno

Como se pode, pois, ter saudades de uma vida assim? Fernanda Isento, que aos 10 anos se iniciou como operária têxtil em Manteigas, é perentória: “Nada do que vivi na empresa [Sotave] me deixa alguma lembrança agradável e, muito menos, saudades, exceto, claro, algumas amizades.” De resto, como nos conta, “até era obrigada a fugir para o rio, se a fiscalização calhava a passar pela fábrica e a permanecer por lá, até os fiscais abalarem.”

O mesmo se passava com muitas outras crianças, como muito bem ilustra Teresa Aparício, em “Profissões e vivências em vias de extinção: ceifa e ceifeiros” (2008), obra escrita com base em depoimentos dos próprios trabalhadores. Ao longo das suas páginas, somos abanados por descrições tocantes que nos falam de tantas crianças e jovens adolescentes, raparigas e rapazes das zonas do interior das Beiras - os tais “ratinhos” - que eram aliciados (ou acompanhavam os pais) a ir para as ceifas no Alentejo, onde trabalhavam de sol a sol e dormiam no restolho, cobertos pela manta lobeira.

Mas se o trabalho no campo já era mal pago, os “ratinhos” - como oportunamente recorda Diogo Serra que durante décadas trabalhou e foi sindicalista no Alto Alentejo -, eram ainda “mais explorados e trabalhavam em piores condições que os alentejanos”.

Como se pode, pois, ter saudades de uma vida assim? Fernanda Isento, que aos 10 anos se iniciou como operária têxtil em Manteigas, é perentória: “Nada do que vivi na empresa [Sotave] me deixa alguma lembrança agradável e, muito menos, saudades, exceto, claro, algumas amizades.” De resto, como nos conta, “até era obrigada a fugir para o rio, se a fiscalização calhava a passar pela fábrica, e a permanecer por lá, até os fiscais abalarem. Coisas a que hoje se dá importância, como higiene e condições de trabalho, eram naquela altura inexistentes”, conclui.

Tempos sombrios, esses, em que na aldeia de Simões, no concelho de Soure, como recorda António Matias, “havia crianças que morriam com ataques de lombrigas” e “uma bacia de água dava para lavar os pés de uma família inteira.”

Dos 11 anos aos 19, Conceição Cavaco, hoje com 73, passou a infância e a adolescência “na apanha da azeitona e da amêndoa”, nos campos do Alentejo, onde nasceu e se fez mulher, porque “todos os braços faziam falta” para a economia de uma família em que cada tostão contava. “Mesmo assim, ainda consegui fazer a quarta classe”, afirma com um misto de vaidade e de lamento, logo acrescentando: “Com as Novas Oportunidades cheguei ao nono ano.”

Na mesma aldeia e na mesma roda de conversa, no centro de Ervidel, concelho de Aljustrel, Maria Teresa Silva, de 83 anos, conta que os “irmãos mais velhos não foram à escola”. Por isso, “a minha mãe também não queria que eu fosse”, recorda. Valeu-lhe a solidariedade de uma professora que viu nela rasgos para os estudos e algumas colegas que lhe deram lápis e cadernos. No entanto, aos nove anos já dividia o tempo na escola com a obrigatoriedade de participar “na monda todos os dias, a partir do meio-dia,” afirma com um brilhozinho nos olhos e uma ponta de emoção na voz. 

Tempos sombrios, esses, em que, na aldeia de Simões, concelho de Soure, como recorda António Matias, “havia crianças que morriam com ataques de lombrigas” e “uma bacia de água dava para lavar os pés de uma família inteira”.

Quem é que pode ter saudades disto e sentir orgulho de um passado recente assim?

Amélia Dinis

Amélia Dinis

Texto: João Figueira | Arte e Imagens: Beatriz Lencastre e Íris de Jesus